As fronteiras do cosmos Barroco: geocentrismo e cultura no século
XVIII português.
Nelson Pôrto Ribeiro.
São poucos os teóricos que compreenderam a importância
da concepção cosmológica dentro da cultura barroca.
Severo Sarduy foi um deles:
"Se o espaço descrito pela cosmologia se achou promovido
ao nível de espaço tipo, é simplesmente porque esta
ciência, na medida onde seu objeto próprio é o Universo
considerado como um todo, sintetiza, ou pelo menos inclui, todos os outros
saberes".1
Entretanto os riscos de uma analogia superficial quando se discorre sobre
cosmologia e arte são grandes; a tendência geral é
a de um paralelismo mecanicista que costuma associar a idéia de
um espaço infinito com uma arte movimentada e de forma aberta.
Como bem observou Argan:
"..a hipótese que quer que a arte barroca tenda com suas
formas em movimento a representar o universo em seu devir contínuo
não se sustenta a um exame mais atento".2
É inadequado associar a voluta barroca que se "repete até
o infinito, e diminui até o incomensurável o círculo
que ela circunscreve"3 com a idéia de um universo em expansão,
idéia essa inimaginável para a mentalidade do séc.
XVIII. Também é precipitada a tese de Sarduy que vê
na elipse barroca um reflexo das concepções cosmológicas
de Kepler enquanto o círculo renascentista ainda estaria atado
a uma concepção de mundo fechada.4 E uma afirmação
como a de Maravall, de que "o movimento é o princípio
fundamental da cosmovisão barroca"5 só pode ser aceita
com reservas, pois se sem dúvida alguma a mutabilidade, a transitoriedade,
a fugacidade da vida terrena são alguns dos temas centrais em torno
dos quais gira a cultura do Barroco. Isso não significa que não
exista também ainda fortemente presente como motte central da mundivisão
deste período uma idéia de imutabilidade e de permanência
que é associada às verdades eternas e divinas.
A idéia barroca da transitoriedade frente à verdade eterna
é muito bem expressa em algumas pinturas de Tintoretto onde muitas
vezes a figura do Cristo ou a da Virgem aparecem perfeitamente delineadas
em primeiro plano enquanto aos fundos uma série de figuras secundárias
movimentam-se apenas esboçadas, como se fossem espectros.6 Durante
muito tempo essas pinturas foram tidas como inacabadas quando acredito
que de fato nada mais exprimem do que a concepção neoplatônica
de níveis de realidade distintos; ou seja, frente às verdades
eternas perfeitamente consubstancializadas do mundo divino nós
não seríamos mais do que trânsfugas em um mundo incorpóreo
e corruptível.7
Mesmo no campo da ciência um autor a primeira vista herético
como Galileu, expressava muito bem o espírito barroco da época
na sua procura incessante por leis científicas que exprimissem
através da eternidade a perfeição da fatura divina
na natureza, afirmando que "Quello che non puo essere eterno non
puo esser naturale".8
É precipitado portanto fazer uma correlação entre
as modificações espetaculares na mundivisão que diga-se
de passagem só foram efetuadas paulatinamente, procurando-se reflexos
imediatos dessas mudanças na cultura e na arte do período,
pois como os documentos nos tem demonstrado o elemento central da cosmologia
da cultura do Barroco é ainda um mundo estático, centrado
e finito e a minha tese é de que em termos de mundivisão
e estrutura mental o Barroco até o final foi geocêntrico.
* * *
Temos uma forte tendência a retrodatar o heliocentrismo como uma
idéia do Renascimento mas devemos observar que existe uma diferença
grande entre uma história das idéias e uma história
das mentalidades e o que pode ser considerado quase correto para a primeira
não pode ser aceito para esta última. A obra clássica
de Copérnico já é do final do Renascimento (1543);
a de Galileu que é de 1632 seria do meio do Barroco segundo a periodização
proposta por Maravall; ainda assim, a física da natureza aristotélica,
base para a concepção de um mundo fechado predominou durante
todo o séc. XVII europeu e início do XVIII até ser
substituída definitivamente pela física newtoniana.9
Contudo o heliocentrismo de Copérnico, ainda que revolucionário
em alguns aspectos, distanciava-se radicalmente do sistema de Newton pois
não só estava muito perto da mundivisão medieval
mantendo a idéia de um céu compartimentado em esferas, como
também seu mundo era centrado e finito; a principal diferença
de Copérnico para a concepção ptolomaico-aristotélica
é que ele substituía a Terra pelo Sol como centro do universo.10
Não foi muito difícil para a mentalidade humanista de vanguarda
fazer a passagem do geocentrismo para o heliocentrismo copernicano. Frances
Yates observou que os círculos esclarecidos do renascimento aceitaram
entusiasmados estas teorias que para eles vinham como uma confirmação
das antigas crenças pitagóricas revividas pela cabala hermética
e pelo neoplatonismo e que afirmavam a primazia solar.11 A grande questão
em termos de ruptura de mundivisão não foi portanto a proporcionada
pelo heliocentrismo copernicano mas pelo newtoniano, que dissolveu as
estrelas fixas na infinitude do universo e deu a cada uma delas a possibilidade
de se tornar um centro,12 pois as inúmeras estrelas fixas, com
Newton, passaram a ser "..os centros de outros sistemas similares"
ao nosso.13
Assim, no espaço entre Copérnico e Newton quando triunfou
definitivamente o heliocentrismo e a idéia de um universo infinito,
concepções intermediárias tiveram repercussão
entre elas a mais famosa foi a de Ticho-Brahé; nesta teoria a Terra
permanecia imóvel no centro do universo tendo na sua órbita
apenas dois planetas - a Lua e o Sol - sendo que os demais planetas seriam
uma espécie de satélite pois estariam na órbita do
planeta solar.
Alguns historiadores da ciência tendem a considerar o sistema de
Brahé um passo à frente ao de Copérnico porque ao
contrário deste ultimo, Brahé destrói os céus
das esferas aristotélicas que compartimentava o espaço.
Esquecem-se contudo que sob o ponto de vista de uma religiosidade tradicional
a manutenção do geocentrismo e da imobilidade da Terra -
Brahé negava inclusive o movimento de rotação14 -
se apresentam como aspectos bem mais importantes e conservadores. Sobretudo
cabe identificar que a questão central na mundivisão barroca
era a manutenção da idéia de um centro e de um universo
finito, assim sendo, pode-se afirmar sem erro que sob o ponto de vista
barroco Copérnico e Brahé estavam mais próximos entre
si do que qualquer um destes dois de Newton. Nada era mais estranho ao
universo mental da cultura do Barroco do que uma concepção
de kósmos que abandonaria qualquer idéia de centro instaurando
ao mesmo tempo as idéias de caos, de acaso e de relatividade. Mesmo
Kepler que apesar das suas descobertas revolucionárias no campo
da astronomia permanecia um homem de mentalidade tradicional profundamente
religiosa e dentro dos moldes da cultura do Barroco, diante da hipótese
defendida por Bruno da infinitude do universo afirmava que esta era uma
idéia que trazia consigo um certo "..horror secreto; através
dela nos achamos errando nesta imensidade à qual são negadas
todo limite, todo centro...".15
Ora, Kepler escreveu isto no início do séc. XVII e é
de se perguntar se com a rapidez com que as descobertas astronômicas
eram efetuadas devido aos melhoramentos contínuos dos telescópios,
se nos séculos seguintes este horror secreto do homem religioso,
esta recusa em aceitar um mundo descentrado e infinito não estaria
totalmente erradicada do pensamento ocidental. Segundo Starobinski a resposta
é afirmativa pois já o séc. XVIII teria destruído
esta hierarquia do espaço, acabando com o mundo lunar e sublunar
e passando consequentemente todos os pontos do kósmos a se equivalerem,
assim, nem Roma nem Jerusalém, nem mesmo o Sol, poderiam pretender
mais ser o centro do mundo:
"Cada um, aqui, ou alhures, pode de bom direito considerar o ponto
onde se encontra como central, à condição de reconhecer
de imediato o caráter relativo e provisório deste ponto
de vista".16
O Barroco apresenta-se portanto como o período onde os grandes
embates filosóficos e científicos que permitiram a passagem
de uma concepção de um mundo fechado para um universo infinito
se deram. Durante este período com certeza discutiu-se muito as
teorias heliocêntricas de Copérnico, Galileu, Kepler e outros,
mas esta discussão ficava ao nível da vanguarda científica,
o que se admitia mais facilmente por todo o sistema educacional europeu
era o sistema de Tycho Brahé.
* * *
A cosmovisão de Newton como vimos, propaga idéias absolutamente
incompatíveis com a religiosidade do tipo que se praticava na cultura
do Barroco onde a idéia de centro seria o principal referencial,
pois local de origem da obra da Criação divina. E assim
como esta cultura prolongou-se por todo o século XVIII em Portugal
dever-se-ia esperar também que a idéia de centro e de mundo
fechado - ao contrário do resto da Europa a se acreditar em Starobinski
- tenha continuado a apresentar nesta sociedade uma dimensão que
muitas vezes temos dificuldades em avaliar devido ao fato de sermos herdeiros
diretos do iluminismo, uma civilização descentrada. Uma
dimensão tão particular que com toda a certeza atingiu todos
os aspectos da vida cultural e artística.
O heliocentrismo de Copernico só ganhou adeptos em Portugal a
partir da segunda metade do séc. XVIII.17 Mesmo assim não
foram muitos os cientistas que enveredaram por esta trilha,18 de forma
que ainda em 1756 o acadêmico Francisco de Pina e de Mello da Academia
Real de Historia Portuguesa não tinha vergonha nenhuma em afirmar
em alto e bom som que
"..não é neceffário fer fábio, bafta
ser catholico, e crer no que Deos diz, para fe conhecer que he immovel
a Terra: Affim o affirmará um fiel, ainda que seja um nefcio, pofto
que o não digam assim os Copernicanos, que prefumem mais de mathematicos,
que de Chriftaons".19
A maior parte dos astrônomos portugueses durante a segunda metade
do sec. XVIII aderiu aos sistemas de Ticho-Brahé ou de Logomontano,
e ainda que ao final deste século já não adotassem
mais estes sistemas, visto mesmo a sua insustentabilidade, era ele que
era ensinado nas escolas oratorianas - a espinha dorsal da estrutura educacional
portuguesa - pelo que se pode constatar através dos manuais publicados
para o ensino de cosmographia nestas escolas20 e que continuaram a ser
publicados pelo menos até 1807.21
Mesmo um astrônomo importante como o Pe. Manuel Alvares, tido por
muitos historiadores atuais como uma das eminências do pensamento
esclarecido na Portugal do séc. XVIII,22 mais de cento e cinqüenta
anos após Kepler ainda mantinha as mesmas preocupações
e o mesmo horror secreto frente a um mundo descentrado. Comentando na
sua obra as teses de Newton, Alvares refutava dessas teses o que elas
tinham de mais revolucionário - a infinitude do universo - para
fixar-se numa concepção cosmogônica heliocêntrica
é verdade, mais ainda muito próxima da concepção
religiosa de Copérnico e de Kepler; defendendo que o Sol era o
ponto em torno do qual girava todo o Universo, inclusive as estrelas chamadas
até então de fixas; pois
"..eftando o Sol no centro do Mundo, como querem os Copernicanos,
neceffariamente devemos confeffar, que as Fixas faõ attrahidas
pelo Sol; de outra forte, poderia haver córpos no Univerfo, que
naõ gravitaffem para hum ponto cõmum do mefmo Univerfo (...)
naõ duvido de applicar ás Fixas as mefmas leis, que a refpeito
dos planetas achou o grande Keplero: naõ terei duvida em dizer,
que ellas fe movem, em curvas ellipticas ao redor do Sol...".23
Não é demais insistir que Alvares era a vanguarda do pensamento
científico luso e à época um dos poucos a defender
o heliocentrismo em Portugal. É possível portanto que a
concepção de centro expressa pelo famoso dicionário
do Pe. Bluteau, embora escrita algumas décadas antes e mostrando
ser menos científica que a do Pe. Alvares, por isso mesmo reflita
melhor todas as nuances que o século acalentou a respeito deste
conceito:
"CENTRO. O centro Mathematica, e Cofmograficamente confiderado,
he o ponto, que eftá no meyo do Univerfo. (...) Como pois a Divina
Sabedoria tem tirado, e como defenvolvido, e defenrolado do centro o Univerfo,
fe tirardes o centro, naõ haverá evoluçaõ
de corpos, naõ terà o Mundo amplitude, e faltando efta no
Mundo, os corpos delle nenhuma difposiçaõ poderáo
ter, nenhuma ordem, nenhum influxo, nenhum movimento (...) Logo o centro
he coufa, que todas as coufas apetecem; centro he o que todas as coufas
defejaõ, como coufa abfolutamente neceffaria para a uniaõ
dos corpos, e confervaçaõ do Univerfo. Da virtude do centro
todas as virtudes dos movimentos naturaes, e elementaes emanaõ
fem a virtude do centro nem o vegetante poderia crefcer, nem a ave voar;
nem o quadrupede andar, nem o homem fazer acçaõ alguma corporea,
(…) Finalmente do centro tudo sahe, e para o centro tudo fe dirige."24
Essa é uma definição complexa e que envolve uma
concepção místico-religiosa aliada ao mesmo tempo
a uma concepção física; a lei gravitacional de Galileu
por exemplo, aqui está explicada pela necessidade que os corpos
tem de unidade e equilíbrio com o Universo. Sabe-se que Bluteau
era adepto das idéias neoplatônicas25 e portanto não
é de se estranhar que tivesse uma concepção de um
universo mágico, vitalista, no qual existia uma identidade e uma
troca ininterrupta de energias vivas entre o homem, o kósmos e
Deus.
* * *
Desde o séc. XVI nas artes plásticas Francisco de Holanda
- um dos primeiros teóricos a exercer no mundo cultural português
perene influência através de seu tratado Da pintura antiga
- não hesitava em atribuir à cosmografia e à astrologia
papéis relevantes entre as ciências que a seu ver convinha
ao artista dominar:
"Ha de saber cosmografia para as descrições da terra,
do mar e saber como jaz lançada a grão máquina do
mundo (...) e dos movimentos e circolos da sphera celestrial, conhecendo
a imensidade dos ceos, e quantos são...".26
Este procedimento era modelar não só porque o homem desta
época quando ouvia falar a palavra natureza pensava imediatamente
em firmamento diferentemente de nós que hoje ouvindo a mesma palavra
pensamos em paisagem,27 mas sobretudo porque, tal como o homem medieval,
ainda acreditavam em uma prática teúrgica baseada numa relação
de simpatia universal, a qual manifesta-se por meio de relações
de semelhança; simpatia universal significa encontrar as correspondências,
harmonias e relações de proporcionalidade entre o macro
e o microcosmos.28 Assim, as concepções cosmogônicas
necessariamente introduziam-se na organização espacial de
forma a deixar marcas indeléveis na produção artística;
"no espaço simbólico do Barroco - naquele fictício,
sobre o qual se abrem a página e a tela; e naquele da cidade e
da igreja, físico mas retrabalhado pelo símbolo, o que se
referencia é uma citação textual ou uma metáfora
do espaço fundador (cosmológico) postulado pela astronomia
da época".29
A maneira como concepção cosmogônica e forma artística
se relacionavam nem sempre era muito clara, através da prática
alegórica barroca, baseada em "Continuæ translationes,
porque na realidade Allegoria he huma continuada compofiçaõ
de metaphoras",30 estas relações poderiam parecer obscuras,
distantes ou sutis e refinadas; fosse na disposição da planta
de uma igreja, no parterre de um jardim palaciano ou na organização
plástico-espacial de uma pintura. Eram em geral programas complexos
que exigiriam para uma análise iconológica demonstrativa,
mais espaço do que o que dispomos no momento.
Existiam entretanto algumas referências bastante diretas que não
deixam margem à dúvida de quanto o compreender a grão
máquina do mundo era importante para o homem do barroco. Na famosa
festa da transladação do Triunfo Eucarístico realizada
em Vila Rica em 1733, uma alegoria do kósmos com todos os seus
sete planetas estava presente como destaque central, e vinha logo após
uma introdução efetivada pela representação
alegórica dos Quatro Ventos, da Fama e do Ouro Preto.31 Estes deuses
do Olimpo antes de tudo devem ser entendidos como representações
alegóricas dos planetas em um esquema que apresentava uma cosmovisão
nitidamente geocêntrica e cristã. Aqui, cabe um pequeno parêntese
sobre essa concepção cosmogônica: a posição
central que o intitulado planeta Sol ocupava no cortejo poderia ser índice
de que se tratava de uma concepção do tipo da de Brahé,
o que contudo é bastante improvável pois a época
em Portugal como já vimos os cientistas ainda defendiam abertamente
o velho sistema ptolomaico. A posição central se justificaria
pelo fato de que segundo a concepção vigente o céu
do Sol encontrava-se exatamente no meio dos céus dos sete planetas
o que sem dúvida - o estar no meio, no centro - seria o motivo
principal pelo qual a época acreditava este planeta como o único
a possuir luz própria: "como no Ceo, Superior nas luzes entre
os astros, se via entaõ, na Terra tambem superior ás figuras
dos Planetas no esplendor da magnificencia".32
Uma das idéias mais caras à arte barroca foi a da alegoria
do monarca absoluto como uma representação deste planeta
luminoso e especial que era o Sol.33 O Sol barroco como sabemos através
da concepção de Brahé, era um astro único
no firmamento, e era uma idéia bastante sedutora para a imaginação
simbólica a do monarca como o mais brilhante dos cortesãos
arrastando atrás de si a cada vez que se movia a corte inteira.
De D. João V comparado a Luís XIV diria um contemporâneo
que se assemelhavam muito, "..par les traits, la démarche,
l'air noble et majestueux. On a dit de ces deux monarques, qu'aucun mortel
n'avait osé supporter leurs regards".34 Se é provável
que este comentário estivesse se referindo a existência de
um olhar severo comum aos dois soberanos não é possível
entretanto ignorar-se o caráter solar desta observação;
o rei brilhava tanto que queimava a retina de quem o olhava. De fato,
nas Entradas Reais realizadas em Lisboa em 1708 quando da chegada de D.
Marianna d'Áustria para consorte de D. João V pelo menos
dois dos inúmeros Arcos de Triunfo construídos tinham suas
alegorias centrais elaboradas em cima dessa temática, sendo que
num deles o autor num dos emblemas estampados fez questão de representar
um Sol do qual se aproximava uma Águia a qual segundo ele seria
"..ave de tam aguda vifta, que fita conftantemête os olhos
no Sol, fem padecer offenfa de feus rayos; (...) alludindo pois a efta
propriedade, no Sol fe fymbolizava o foberano Monarca Portuguez, &
na Aguia a Sereniffima Efposfa Auftriaca".35
A associação contínua do Sol e da luz solar com
o próprio Deus "..provinha de longínquas tradições.
"..do Bel semita, do Ra egípcio, do Ahura Mazda persa, (...)
até naturalmente, o platônico sol das idéias",36
é evidente entretanto que à época do Barroco ninguém
mais sustentava a origem solar da casa real governante como havia sido
feito no Antigo Egito, por outro lado não se podia deixar de manipular
esta idéia ainda tão ancorada no imaginário coletivo
e se o Barroco não sustenta mais a ascendência divina de
seus reis, nem por isso deixa de construir um instrumento jurídico
fundamental de sustentação do Estado que é a teoria
do direito divino dos reis.
Em princípios do século XIX no mundo português na
América, no ocaso da cultura do Barroco, quando a Missão
Artística francesa colocava os primeiros germes daquela mundivisão
descentrada e infinita propagandeada pelo iluminismo, costumava-se ainda
em relação ao monarca compará-lo ao Astro-rei: de
D.João VI, e do seu papel benéfico no governo, diria dele
um historiador coevo:
"Por toda a parte (do país) se diffunde a benigna influencia
d(este) luminoso Astro, que o esclarece, e o vivifica com a sua Augusta,
e Real Presença".37
Endnotes
1 Severo SARDUY. Barroco. Paris, Gallimard, 1975. p.12.
2 Giulio Carlo ARGAN. L'âge baroque. Genève, Albert Skira,
1994. p.17.
3 Walter BENJAMIN. Origem do drama barroco alemão. São
Paulo, Brasiliense, 1984. p.106.
4 SARDUY. op.cit.
5 José Antonio MARAVALL. La cultura del Barroco. Barcelona, Ariel,
1996. p.363.
6 Tais como no Batismo de Cristo (Veneza, Scuola di S. Rocco) ou na Ascensão
(Veneza, Scuola di S. Rocco).
7 Hauser contesta esta interpretação que tem a sua primeira
versão em Dvorák afirmando que isso não é
defensável pelo fato de que na Ascenção ele observa
dois grupos distintos de Apóstolos que são "eles mesmos
retratados com graus diferentes de substancialidade e movem-se em planos
de realidade diferentes" (Arnold HAUSER. Maneirismo. São Paulo,
Perspectiva/USP, 1976. p.249). Isso só é indefensável
ao ver deste autor, porque ele desconhece o fato de que a teoria neoplatônica
defende justamente níveis de realidade diversos, onde quanto mais
próximo se está do Empyreo, mais próximo se está
da realidade consubstancializada.
8 apud MARAVALL. op.cit. p.375.
9 A este respeito ver particularmente Paul KRISTELLER; "A tradição
aristotélica" in: Tradição clássica e
pensamento do renascimento. Lisboa, Edições 70, 1995; e
também Eugênio GARIN. Moyen âge et renaissance. Paris,
Gallimard, 1969.
10 A este respeito ver Alexandre KOYRÉ. Du monde clos à
l'univers infini. Paris, Gallimard, 1973. cap. II
11 Frances YATES. Ensayos reunidos II. Renacimiento y reforma: la contribución
italiana. México, FCE, 1991. p. 189.
12 Segundo Koyré op.cit. Giordano Bruno foi o primeiro a defender
a tese de um universo infinito e descentrado, no entanto só a partir
das demonstrações de Newton é que essas idéias
passaram a ter aceitação universal.
13 Isaac NEWTON. Do sistema do mundo. Coleção Os Pensadores.
São Paulo, Nova Cultural, 1996. p.256.
14 KOYRÉ. op.cit. p.80.
15 Apud KOYRÉ. op.cit. p.86.
16 Jean STAROBINSKI. L'invention de la liberté. Genève,
Albert Skira, 1994. p. 115.
17 O Prof. Rómulo de Carvalho também é desta opinião
A astronomia em Portugal no séc. XVIII. Lisboa, Instituto de Cultura
e Língua Portuguesa, 1985. p.23).
18 É comum a historiografia atribuir esta cautela ao receio que
os cientistas tinham da Inquisição portuguesa, ainda ativa
até o final do sec. XVIII. Eu não acredito nisso, ao meu
ver esta cautela era devido aos entraves de uma estrutura mental religiosa
tradicional que perdurava em Portugal, pois desde 1616 a Igreja permitia
que se falasse em heliocentrismo enquanto hipótese, e foram muitos
os que se valeram deste artifício nos estados católicos
mais repressores (inclusive em Portugal - o Pe. Theodoro de Almeida e
o Pe. Manoel Alvares por ex.). Na verdade tanto Koyré como Cassirer
constatam que o sistema copernicano não era tão ameaçador
assim para a Igreja, que podia admiti-lo enquanto hipótese: "O
que era intolerável, o que ameaçava o sistema da Igreja
até em seus alicerces era a nova concepção de verdade
que Galileu proclamava" (Ernst CASSIRER. A filosofia do iluminismo.
Campinas, Unicamp, 1994. p.72).
19 F. P. e MELLO. Juizo sobre o terremoto. Coimbra, Off. de Antonio Simoens
Ferreira, 1756. p. 02.
20 Dialogos da esfera celeste, e terrestre: para o uso das Escolas da
Congregação do Oratorio na Real Casa de N. Senhora das Necessidades,
ordenado pela mefma Congregação. Lisboa, Regia Officina
Typografica, 1788.
21 CARVALHO. op.cit. p.32.
22 De Alvares o Prof. Banha de Andrade escreveu que pelos escritos e
ensinamentos, foi um dos "obreiros de maior significado dessa alteração
(filosófica) que substituiu a Escolástica" (Contributos
para a história da mentalidade pedagógica portuguesa. Lisboa).
23 P. Manuel ALVARES. Historia da creaçao do mundo conforme as
ideas de Moizes, e dos filozofos: ilustrada com hum novo siftema, e com
varias notas, e dissertaçoens. Porto, Officina de Francifco Mendes
Lima, 1762. p.86 e 101.
24 D. Raphael BLUTEAU. Vocabulario portuguez e latino. Coimbra, No Collegio
das Artes da Companhia de JESU, 1728 para o Suplemento II. s/p.
25 Bluteau no seu famoso Dicionário utiliza diversas vezes as
concepções do jesuita hermético Athanasius Kircher,
assim como no seu Oraçoens gratulatorias na feliz vinda da muito
alta e muito poderofa Rainha da Gram Bretanha. (Lisboa, 1693) utiliza
como referência bibliográfica o Theologia Platonica de Marcílio
Ficino.
26 Francisco de HOLANDA. Da pintura antiga. Lisboa, Imprensa Nacional,
1983. p.66.
27 H. von Stein apud: Sergio Buarque de HOLANDA. Raizes do Brasil. São
Paulo, Companhia das Letras, 1997. p.137.
28 Umberto ECO. Arte e beleza na estética medieval. São
Paulo, Globo, 1989. p.179.
29 SARDUY. op.cit. p.12.
30 BLUTEAU. Vocabulario...op.cit. Tomo I, 1712. s/p.
31 Maria Lucia MONTES. "Entre a vida comum e a arte: a festa barroca"
in: Emanoel ARAUJO (curadoria) O universo mágico do barroco brasileiro.
São Paulo, FIESP, 1998. p. 365.
32 Triunfo Eucharistico (...) na solene trasladação do
Divinissimo Sacramento, da Igreja da Senhora do Rosário, para um
novo Templo da Senhora do Pilar, em Vila Rica (...) Lisboa Occidental,
Officina da Musica, 1734.(apud: MONTES. op.cit. p. 367)
33 cf. MARAVALL. op.cit.
34 Apud: A.F. PIMENTEL. Arquitectura e poder: o real edifício
de Mafra. Coimbra, Faculdade de Letras, 1992. p. 20.
35 Francisco Leitam FERREIRA. Idea Poetica, Epithalamica, Panegyrica,
que servio no Arco Triunfal, que a Nação Italiana mandou
levantar na occafião em que as Mageftades dos Sereniffimos Reys
de Portugal Dom Joam V & D. Marianna de Austria foram à cathedral
de Lisboa no dia de Sabbado 22 de Dezembro de 1708. Lisboa, Officina de
Valentim da Costa Deslandes, 1709. p.46.
36 Umberto ECO. Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro,
Globo, 1989. p.65.
37 Pe. Luiz Gonçalves dos SANCTOS. Memórias para servir
a história do reino do Brasil... Lisboa, Impressão Regia,
1825. Tomo I, p.320.
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