Os limites entre história e ficção na História
do cerco de Lisboa de José Saramago.
Robson Lacerda Dutra
Professor de Literatura Portuguesa, Universidade Estado do Rio de
Janeiro. Aluno do curso de mestrado em Literatura Portuguesa, Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão
– no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num
certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não
está interessada em transmitir o "puro em si" da coisa
narrada como uma informação ou um relatório. Ela
mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la
dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão
do oleiro na argila do vaso". Walter Benjamin
Percebe-se através da leitura de autores portugueses uma preocupação
constante com a História. O primeiro grande texto desta literatura,
Os Lusíadas, dedica-se exatamente a narrar e exaltar os feitos
no além-mar e a glória deles advinda. A persistência
do tema tem sido recorrente ao ponto de um dos mais conhecidos textos
de Fernando Pessoa, o único, aliás, publicado em vida, Mensagem,
voltar exatamente seus olhos à revisão da história
de Portugal.
Através da leitura de autores sobretudo românticos, percebemos
os ideais de busca das raízes portuguesas como modo de alteração
do presente e o fim da instabilidade política e social do Portugal
de então. Desta forma, coube tanto às Lendas e Narrativas
de Alexandre Herculano quanto a Almeida Garrett com sua peça Frei
Luís de Souza reviver o passado de glórias do país,
sobretudo, quando da conquista e domínio do território nos
primórdios da colonização. Metaforicamente cremos
poder vislumbrar o objetivo dos dois autores: a busca do passado como
modo de compreensão e superação do presente, até
aquele ponto, hostil e o ressurgimento da certeza das glórias portuguesas
como nação predestinada, como já bem dissera Camões.
Parece-nos evidente haver uma linha bastante delimitada entre a produção,
já nesta época, entre história e ficção,
objetivo deste trabalho, e o tipo de linguagem que José Saramago,
na modernidade, desenvolve. Nesta nova abordagem vislumbramos uma maior
interação entre facto e ficto, além de uma também
maior ingerência entre eles.
Devido à complexidade do tema e às inúmeras possibilidades
que a bibliografia nos possibilitaria, objetivamos nos deter especificamente
na História do cerco de Lisboa e a forma como Saramago construirá
sua narrativa.
Elementos da narrativa
"...contando histórias, os homens articulam sua experiência
do tempo, orientam-se no caos das modalidades potenciais de desenvolvimento,
marcam com enredos e desenlaces o curso muito complicado das ações
reais dos homens."1
Segundo Ricoeur, no fragmento acima, é através da narrativa
que o homem revela sua preocupação em documentar o tempo
e constituir o que chamamos de História. Para tanto, usa mão
da narrativa, que revela em sua essência a experiência de
tempo. Falar em narrador quando se fala em Saramago implica abordar vários
aspectos semânticos que a palavra possui. Para que a ação
do narrador no universo que compõe a narrativa, devemos evocar
a diegese, ou seja, o valor adquirido pelo significado, o mundo dito "possível",
que enquadra, corrobora e confere inteligibilidade à história.
Para que se entenda o conceito de narrador faz-se necessário entender
em até que medida ele se aproxima ou distancia-se do de autor.
Para Roland Barthes o narrador é visto como autor do texto e é
através dele que o discurso será trabalhado e enunciado,
agindo, assim, como o protagonista da narrativa. Narrador e criador confundem-se,
então. Sendo fruto de seu labor, o ponto de vista do narrador pode
ser conduzido pelo autor, atribuindo-se conceitos e ideologias, direta
ou indiretamente. Uma vez que o narrador figura como personagem principal
da narração, aquele que vai argumentar o seu discurso o
faz por meio de uma voz. Está voz é a representação
plena de sua presença observável no nível do enunciado
narrativo, para além da sua primordial função de
medidor da história contada. Ela é observada através
da manifestação da subjetividade do narrador projetada do
enunciado, podendo revestir-se de feições muito diversas
e explicar-se por motivos também vários. A narrativa, assim,
pode ser:
Narrador auto-diegético – O narrador relata
suas experiências como personagem central da história, senhor
de uma atitude narrativa específica, do "eu" narrador;
Narrador heterodiegético – O narrador relata uma história
da qual não participa como personagem. Apenas sabe o que se passou
e se preocupa em mostrar tal fato ao leitor;
Narrador homodiegético – O narrador participa
da história e se destaca, não como protagonista, mas podendo
participar da trama como figura ligada ao protagonista, essencial ao enredo.
Postas estas instâncias na narrativa, podemos perceber que, em
decorrência da multiplicidade do narrador, surge também um
desdobramento do ato narrativo em si:
Nível extradiegético – O narrador
é exterior à diegese que narra, colocando-se sempre, mas
não obrigatoriamente, numa posição de ulterioridade.
Conhece bem a história, já que o momento da narrativa é
posterior ao dos acontecimentos;
Nível intradiegético – Nele se encontram
personagens, ação e fatos, ou seja, os componentes da narrativa,
no tempo em que a história acontece. Há a subdiegese quando
surgem histórias embutidas em histórias;
Nível hipodiegético – Uma personagem
da história é solicitada ou incumbida de contar outra história
que, assim, aparece embutida na primeira delas, transformando-se, assim,
em narrador de uma nova história.
No que se refere ao Tempo, Espaço e Ação, os três
elementos da narrativa, podemos salientar que o tempo narrativo se divide
em dois aspectos: o tempo da história e o do discurso que o vai
registrar. O da história é múltiplo, pois são
muitos os personagens do espaço diegético. No segundo, o
narrador torna prioritário o que vai narrar, tornando-se seletivo
e agindo de acordo com o ordenamento da história.
O espaço se amplia em paisagens geográficas, abarcando,
ainda, os espaços social e psicológico. Por fim, a ação
é o espaço onde se desenvolvem os eventos, o próprio
desenrolar da história.
Sob o ponto de vista da História
Como citamos no início do trabalho, o ser humano busca a documentação
de sua história. Este desejo tem tomado várias formas ao
longo dos tempos, quer na forma das crônicas dos muitos reis que
governaram Portugal, nos relatos de viagens, das conquistas ultramarinas.
Mesmo nelas, onde toda uma historicidade perpassa o texto, vemos que,
como Walter Benjamin2 bem afirmou, a história nada mais é
do que o registro formal de uma visão específica das classes
dominantes. Para que uma época seja estudada e entendida é
necessário esquecer por completo o que veio depois dela e concentrar-se
apenas nos fatos em si.
A história, sempre em busca de explicações ao universo
do homem, nasceu ligada à filosofia que, nesta época, abrangia
também a matemática, a política, a biologia entre
outras ciências. Foi com Heródoto que o sentido de investigação
foi empregado pela primeira vez e, com ele, a necessidade da preservação
dos fatos contra o tempo. Na Idade Média temos em Santo Agostinho
a explicação teológica da história: cidade
divina em oposição à cidade do Homem, num plano divino.
A ela se associaram os Anais da Alta Idade Média que eram "breves
relações cronológicas de eventos importantes àquele
reino".3 Desprovidos do componente narrativo, apenas uma lista de
eventos se apresentava, descrevendo feitos históricos. A eles seguiram-se
as crônicas como representação historiográfica
medieva que, embora descrevessem eventos e se ativessem à seqüência
cronológica, faziam-no com mais detalhes e maior narratividade,
reaparecendo nelas o sujeito da enunciação. Apenas com o
declínio do sistema feudal e o avanço burguês, no
séc. XVIII, e, sobretudo, com o Iluminismo é que a história
tentou ser vista como o desenvolvimento linear progressivo e ininterrupto
da razão humana, recusando elementos não palpáveis,
como a fé, para, pela razão, se impor como realidade. Com
a consolidação dos territórios europeus e a volta
ao nacionalismo e à nacionalidade é que surgiram as "escolas
científicas". A narrativa como relação de acontecimentos
concatenados seria a etapa preparatória da generalização
indutiva, caminho do verdadeiro conhecimento histórico, firmado
em leis explicativas.
Com a história positivista, tencionou-se focar o homem com retratado
em suas relações sócio-econômicas, buscando,
assim, a verdade através de traços ou vestígios que
pudessem dar autenticidade ao relato. Coube, então, à história
"um levantamento científico dos fatos, sem procurar interpretá-los,
deixando à sociologia sua interpretação".4
Com o advento do capitalismo industrial, que impulsionou a sociedade
burguesa, Marx e Engels elaboraram a concepção científica
do mundo, criticando a sociedade de então e criando propostas para
sua transformação, aplicando, para isto, o materialismo
histórico como método.
A Nova História propõe que o cientificismo seja posto de
lado para que se ateste a veracidade dos acontecimentos, buscando investigar
o homem à luz de suas relações sócio-culturais.
Foucault, em sua busca arqueológica a define a partir da Histórias
das Idéias, tomando a parte pelo todo:
"...objeto incerto, fronteiras mal desenhadas, métodos tomados
de empréstimo aqui e ali , procedimento sem retitude e sem fixidez.[...]
Ela conta a história dos elementos secundários e das margens.
Não a história das ciências, mas a dos conhecimentos
imperfeitos, mal fundamentados, que jamais puderam atingir, ao longo de
uma vida obstinada, a forma verdadeira da cientificidade..."5
Considerando especificamente a História do cerco de Lisboa, vemos
que coube ao revisor inserir o "Não" que originou o romance.
As conseqüências do seu ato foram em decorrência de a
inclusão da negativa ter sido feita a mão, quando da revisão.
Em épocas em que os textos são feitos com o auxílio
do computador a tecla "delete" faz com que não haja reminiscência
do texto anterior, o que implica uma perda do processo de produção
do autor e daquilo que primeiro passou de sua mente à sua mão
e ao papel. Contudo, quando o texto final é aprovado pelo autor,
temos ainda a questão das possíveis interpretações
que o leitor dará a ele. Desta forma, uma gama de possíveis
interpretações surgem e, ainda de acordo com Todorov, "a
única leitura credível de um texto é uma leitura
equivocada, já que a existência de um único texto
só é dada pela cadeia de resposta que evoca"6. Cabe-nos,
nesta altura, outra vez refletirmos sobre o texto de Benjamin, o qual
nos lembra que a história nada mais é do que o registro
formal do desejo de uma classe dominante, seja ela qual for e em qualquer
época que esteja inserida. Desta forma, os textos, sobretudo os
históricos deveriam ser encarados com prudência. Ainda segundo
ele, para que um período da história seja devidamente entendido
deve-se esquecer, ignorar o que veio depois dele e determos nossas vistas
apenas nele, já que o conhecimento do que lhe sucedeu também
seria influenciado pelos desejos da referida classe dominante. Estas diferenças
fazem da história elementos distinto das ciências exatas,
por exemplo, já que o autor da história busca o que seria
a verdade dentro do seu plano de compreensão do fato narrado. As
demais ciências físicas buscam apenas o rigor. Desta forma,
é possível descrever uma experiência química,
por exemplo, quando se sabe o que os diferentes elementos misturados podem
ocasionar. Mesmo que seu resultado seja desconhecido para o cientista,
a ordem com que a mistura é feita o permitirá repeti-la
e registrá-la de modo objetivo.
O historiador lida com fatos anteriores a eles. Tentam encarar o fato
histórico pela reconstituição, analisando documentos,
depoimentos, fazendo possíveis conjecturas onde não há
leis físicas pré-determinadas . Sob este aspecto, cremos
poder afirmar que a história não é ciência.
O rigor que lhe é pertinente é subjetivo e se coloca ao
nível da crítica, por isto sua descrição pode
ser diversa já que as possibilidades de interpretação
são múltiplas.
A Descrição do fato histórico
As cruzadas foram, talvez, a maior expressão do espírito
medieval. De acordo com Georges Duby7, a sociedade medieva, bastante hierarquizada,
tinha, em conseqüência desta segmentação funções
bastante definidas: aos guerreiros cabia a proteção da sociedade;
a igreja rezaria pela manutenção da paz e das relações
e o povo, ou seja, os que não fossem incluídos nas camadas
anteriores, produziriam o pão. Num período em que os territórios,
os Estados estavam se formando, a guerra era uma atividade constante.
Não obstante não seja pertinente falarmos em nacionalismo
nesta época, os senhores feudais e a igreja tencionavam continuamente
aumentar suas posses, seus bens, gerando conflitos internos e externos
a si mesmos. A disputa territorial foi, desta forma e por conseguinte,
um grande marco da mentalidade da época. Posto que o homem medievo
vivia em função de uma força empírica que
o sustentava, atribuída a Deus, que o sustentava, a igreja tornou-se
a representante da glória celestial na terra e, foi em nome de
seus interesses que as cruzadas se realizaram. Sob a égide da cruz
amealharam-se riquezas e possíveis impecilhos aos interesses eclesiásticos
foram, em nome da fé, eliminados. Note-se que a última grande
cruzada, a Albigense, foi feita por cristãos que eliminavam pelo
fio de suas espadas outros cristãos, em nome de uma mesma fé,
do mesmo Deus e não mais contra os mouros ou mesmo os bárbaros
de antes.
Entretanto, nossa proposição neste texto será apenas
o chamado cerco de Lisboa, ocorrido nos primórdios do reinado do
primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques. Segundo o relato histórico,
em 1147, aproximadamente 164 navios, oriundos de vários países,
partiram de Dartmouth, Bretanha, com direção a Lisboa, a
fim de livrarem a cidade do cerco mouro. Sua tripulação
era composta por cruzados e peregrinos que, em busca da remissão
de seus pecados, partiram à terra santa e à aventura. A
primeira escala foi em San Salvador, na Espanha, de onde partiram para
o Porto, onde foram recebidos por Pedro, bispo da cidade que expôs
aos cruzados a partida do rei e seu exército contra a Lisboa sitiada.
Em encontro posterior dos cruzados com o rei, este lhes assegurou o saque
total e irrestrito a tudo que estivesse na cidade. Após dezessete
semanas de cerco, os mouros foram vencidos e a cidade tomada.
Tal versão da história nos foi dada por um cruzado, de
nome Osberno, militar inglês que, além das armas, carregava
em sua bagagem pergaminho e tinteiro8. Ainda sobre ele temos a seguinte
informação:
"Escreve bem, apesar do seu latim bárbaro, que tanto me deu
que fazer. Tem um certo pitoresco sóbrio, degenerando em magreza
de estilo; mas tira realce da mesma singeleza marcial da expressão.
Não descreve; e que pena é não descrevesse ! narra;
copia apontamentos fugitivos, quando muito, na maior parte dos casos,
mas encanta, e, às vezes, recorda o antigo. As suas prosopopéias,
os grandes rasgos contados com lisura, lembram, no seu tanto, alta história.
Os seus sentimentos religiosos de bom cavaleiro palpitam no seu dizer
e nas suas superstições, inspirados de um coração
valente que (bem se vê) batia sob uma cruz." 9
A narrativa de possível autoria de Osberno encontra-se na Universidade
de Cambridge, Inglaterra, e não contém dados sobre o autor
nem a quem se destinou. Não se pode afirmar que esta seja tampouco
a carta original, datada da segunda metade do século XII, já
que o assunto abordado no frontispício é outro, apesar de
a caligrafia ser idêntica. Estudos paleográficos mostraram,
ainda, que o apógrafo foi feito no século XIII.
Levando em consideração que trata-se de uma carta, uma
epístola, cremos que Osberno enuncia acontecimentos reais, os quais
testemunhou, originando o narrador homodiegético. Apesar disto,
o caráter histórico que se atribui ao texto não se
sustenta pela narrativa, mas sim pelo narrador é que se dão
as intenções e efeitos que vão diferenciá-lo
da ficção de Saramago. Para tanto, o narrador tem que ser
visto nas suas relações com o espaço, tempo e ação,
o que implica a perspectiva narrativa adotada com o intuito de gerar o
seu significado textual, seja ele histórico ou ficcional.
Se nos ativermos ao narrador a ao espaço poderemos perceber que
o narrador da Crônica da tomada de Lisboa participa ativamente dos
fatos, assumindo as feições da homodiegese, conforme mencionado
anteriormente. Sua importância se restringe à do testemunho
da ação que ocorre no espaço diegético. Sua
narração se atém à história a ser narrada,
desde seu início, na Inglaterra, sua chegada à Espanha e
todo o percurso até Lisboa, citando as províncias até
a chegada ao Porto:
"Continuando a navegar, chegamos daqui a Ribadeo, que confina com
a província de Lugo e dista vinte milhas da cidade do mesmo nome.
Daqui, continuando a nossa derrota, chegamos a Ortígia, no Cabo
Ortegal, donde seguimos para a Torre de Taro, obra admirável Outrora
construída Por Júlio César (...) Depois o rio Leça,
E a seguir o Douro, sobre o qual está a cidade de Portugala (Porto),
assim chamada do seu antigo nome Porto dos Gauleses (...) (SILVA, 1936:41)
No que se refere ao tempo e a narração, vemos que o narrador
faz coincidir o a ação e a descrição. É
próprio do narrador homodiegético viver o tempo decorrido
no espaço diegético. Através da sua percepção,
comentários e anotações é que sabemos da ocorrência
e sobreposição dos fatos, sempre em ordem cronológica.
Para tal, ele utiliza também os dias, as semanas, os meses, em
geral relacionados a datas religiosas definidas, outra vez se aproximando
do discurso histórico. A última parte da crônica,
onde o acontecimento central é a tomada da cidade, este recurso
fica mais evidente, já que a marcação do tempo torna-se
mais evidenciada, assim como os esforços empreendidos pelos cruzados.
É neste momento que destacamos também a unidade de ação,
em sua grande maioria vividas e testemunhadas por ele. Os três espaços:
espaço, tempo e ação conferem à crônica
uma intenção historiográfica, mesmo que intencional,
através de recursos da verossimilhança mimética.
A Apropriação da História por Saramago
A razão de ser da História do cerco de Lisboa10 está
na "revisão" histórica da História do Cerco
de Lisboa, tomada pelos mouros em 1147. O personagem principal da obra,
Raimundo Silva, revisor de uma editora, revolta-se com a ajuda dada pelos
cruzados na libertação da cidade e, ao revisar um livro
de história atribui-lhes um "Não" em resposta
ao pedido de D. A. Henriques em vez do "Sim" oficialmente registrado.
Seu ato causa-lhe dissabores na editora que contrata Maria Sara como chefe
dos revisores, em especial de Raimundo Silva e de possíveis tentativas
de alteração das obras revistas. Dada a proximidade que
passa a existir entre os dois, esta lhe pede, em tom quase de desafio,
que reescreva a história a partir da perspectiva do "Não".
A partir daí, sem poder mudar os acontecimentos futuros em relação
ao ocorrido, ou seja, mantendo o discurso histórico, Raimundo Silva
criará sua própria verdade histórica.
Se pensarmos a obra de Saramago tendo por base Levantado do chão,
Memorial do Convento, A Jangada de Pedra, O Ano da morte de Ricardo Reis,
a peça Que Farei com este livro ?, percebemos nele um mesmo tipo
de preocupação que permeia muitos escritores portugueses:
a questão da identidade. Segundo Eduardo Lourenço11, "a
questão da identidade se confunde com a da mera existência,
a qual não é nunca um puro dado, adquirido de uma vez por
todas, mas o ato de querer e poder permanecer conforme ao ser ou ao projeto
de ser aquilo que se é". Desta forma, podemos concluir que
"revisar" o passado, mesmo sob a luz da modernidade tem sido
uma preocupação constante em Saramago, sobretudo quando
se pretende evidenciar o novo sentido que a história vem assumindo
ao longo do tempo, além de repensar o paradigma de modelo do romance
histórico português.
No caso da História do Cerco de Lisboa, o fato que desencadeia
toda esta preocupação se expressa através da inserção
do "Não" de Raimundo Silva acerca da verdade histórica,
abrindo discussão sobre a versão oficial, expandindo o conceito
de verdade. Diante de tal fato, como não pensar que o "Sim"
histórico não foi também incluido por uma vontade
diferente dos acontecimentos? A palavra verdade, então, passa a
assumir também grande pluralidade, possibilitando relativizar o
documento histórico enquanto narrativa, ou seja, o texto concluído
por um sujeito, e as intenções que possam ter sido verdadeiras
sobrem as críticas na voz dos narradores heterodiegéticos.
Se voltarmos nossos olhos para o nível da narrativa com relação
ao espaço, observaremos que o narrador heterodiegético descreve
a Lisboa deste século, em contemporaneidade com a escritura do
romance. No entanto, partindo da vantagem histórica de esta mesma
Lisboa guardar ainda os mesmos monumentos dos primeiros tempos, no caso
o Castelo de São Jorge, além de marcas do passado que o
presente guardou, o narrador, Raimundo Silva estabelece uma ponte com
o passado ao conhecer e visitar os mesmos lugares descritos na perspectiva
histórica. A névoa que cai sobre Lisboa é a mesma
que, com seu frescor e luminosidade acordava o "almuadem" e
o guiava à torre para o anúncio de um novo dia e de novas
preces. Esta mesma imagem é a que fará com que o revisor,
já em nível hipodiegético, descreva a cidade do século
XII e conduz o leitor, mesmo aquele que não conhece nenhuma das
duas Lisboas, a entrar em contato com a cidade descrita pelas fontes históricas
e encaradas sob um novo prisma, fundindo, assim, em apenas um espaço
físico os primeiros níveis narrativos, realçando
e ressaltando as diferenças culturais, sociais, econômicas
e religiosas que se estabeleceram ao longo dos séculos.
Na medida em que nos é possível fazer uma crítica
ao romance, cremos que seria interessante termos um aprofundamento do
ponto de vista dos mouros na história. A narrativa no que se refere
à história está centrada no desejo da retomada da
cidade, sem que nos sejam apresentados os possíveis desdobramentos
do lado de dentro da muralha.
Ainda no que diz respeito à narrativa, vemos que o primeiro nível
a ser abordado é o extradiegético, onde o narrador não
participa da diegese. Cabe a ele narrar em terceira pessoa, falando sobre
o outro. É através dele que se dá o primeiro passo
em direção à diegese. No que se refere ao nível
extradiegético, percebemos que ele ocupa um plano inicial e contém
demais planos. O nível intradiegético ocupa um plano imediatamente
após ele e é neste nível que percebemos as unidades
de espaço, tempo e ação, já que ocorre o discorrer
da história e os personagens desenvolvem suas ações.
É nele que está Raimundo, o revisor já que ele participa
de uma história, que é a sua.
Também Maria Sara ocupa espaço de co-narradora, já
que, ao solicitar que Raimundo dê continuidade à história
sob o ponto de vista do "Não", assume a função
de narradora deste segundo plano, possibilitando observar as ações
dentro da diegese. Ainda no segundo plano, intradiegético, Raimundo
atua como narrador. Ao revisar o texto dos cruzados, temos acesso ao terceiro
plano do nível, onde o narrador está fora da diegese e sem
participar das ações que a permeiam. Surgem, então,
novos cenários, personagens e ações que não
se estavam ligados ao primeiro nível da narrativa.
A alternância das muitas etapas e instâncias da narrativa
nos possibilita perceber o distanciamento crítico do narrador no
que se refere ao tempo, espaço e ação e as várias
personagens que assumem a narrativa. Um, no nível extradiegético,
Raimundo, no nível intradiegético, e, enquanto narrador
da tomada de Lisboa aos mouros, no nível hipodiegético.
O desmembramento destas vozes e suas implicações é
que fazem o questionamento do discurso histórico e sua reavaliação.
Logo de início, no nível extradiegético, o narrador
heterodiegético, distanciado da história que se propôs
contar, portanto, não personagem da diegese, busca abissalmente
a verdade histórica acerca da tomada de Lisboa, navegando entre
história e ficção. A seguir, numa segunda diegese,
no nível intrediegético, o narrador heterodiegético,
Raimundo Silva reconta a tomada da cidade, não participando da
nova diegese como personagem, ao por na boca dos cruzados o "Não",
criticando, assim, o discurso histórico. O mesmo Raimundo Silva,
narrador heterodiegético, desmonta e desmascara todo aquele discurso
que diz aproximar-se da verdade, levando a conhecê-la mais profundamente.
Esta perspectiva narrativa, organizada sob a voz destes narradores, implica
um novo tratamento dado às relações entre enunciado
e enunciação no universo do tempo, espaço e ação,
isto comparando-se com o paradigma historiográfico: a carta de
Osberno.
O Diálogo com a modernidade
Diante do exposto até agora, torna-se mais fácil identificar
e compreender a relação do discurso histórico com
o passado por haver existido entre o fato e a abordagem um espaço
de tempo considerável que permite, por sua vez, que muitos elementos
surjam e sejam analisados se preponderantes ou não na escritura
da História. Esta relação, no entanto, na obra de
José Saramago também dialoga com o presente, com o curto
espaço de tempo entre fato e narrativa.
Se considerarmos A Jangada de Pedra12, por exemplo, veremos que todo
o plano da narrativa se dá no mesmo plano da enunciação
e acontecimento dos fatos. A que se deve isto ? é a pergunta que
nos vem à mente. Se nos detivermos na obra veremos que nela a península
ibérica, ou seja, Portugal e Espanha, se desligam do continente
europeu e passam a singrar o Atlântico como uma nova nação,
um novo continente. O pano de fundo para tal desligamento é uma
série de mistérios que acontecem em várias lugares
distintos. O primeiro mistério se passa em Cerbère, cidade
francesa onde os cães não latem jamais, mas que o fazem
no mesmo momento em que Maria Carda, em Portugal, passa pelo chão
uma vara de negrilho, fazendo uma risca que não se cobrirá
nem apagará mais. Em outro local, mais um mistério acontece.
Joaquim Sassa lança ao mar uma pedra de grande peso e volume, dispensando,
porém, a força que seria necessária ao arremesso
de um seixo. Outro personagem, outro mistério: José Anaiço
é seguido constantemente por uma nuvem de pássaros. O espanhol
Pedro Orce sentirá sob seus pés, assim como o cão
Ardent, posteriormente chamado Piloto, o tremor constante que o deslocamento
da península causará, até que ela pare definitivamente
sua viagem em direção ao futuro. Por fim, Maria Guavira
desenrolará um pé de meia de lã, cuja meada jamais
terá fim.
Todos os personagens citados se sentem de alguma forma ligados e responsáveis
pelo desprendimento e deslocamento da península e formam uma caravana
de procurados, que vai aumentando gradualmente e que vaga pelo território
ibérico até que estejam todos reunidos e tentem achar uma
explicação para os fatos surpreendentes. Segundo o autor,
os personagens "seguem e não o sabem, o Caminho de Santiago",
ou seja, retomam uma tradição de um passado que lhes é
caro e que cujo resultado será um benefício espiritual,
uma benção pedida e alcançada.
O grau de intertextualidade de Saramago, especificamente nos Lusíadas,
é bastante grande e complexo. Se no reinado de D. João I,
o Mestre de Avis, o mar era a solução econômica mais
viável, na modernidade o mar é a saída político-social
também mais indicada `a questão da nacionalidade.
O surgimento da fenda que separa a península do continente europeu
também proporcionou a portugueses e espanhóis a tarefa de
desbravar um outro mar, um novo mar.
"A península ibérica /.../ começou a mover-se,
barca que se afasta do porto e aponta ao mar outra vez desconhecido".
(pág. 43)
" Arrepiavam-se as carnes e o cabelo de olhar tão extrema
fatalidade, maior que a força humana, que aquilo já não
era canal, mas água aberta, por onde navegavam os barcos à
vontade, em mares estes sim, nunca dantes navegados" (pág.
88)
"Este foi o dia assinalado em que a já distante europa /.../
ia em cerca de duzentos quilômetros" (pág. 151)
" Vamos mais devagar, em cima duma jangada de pedra, que navega
o mar /.../ para traçar a nova rota das descobertas". (pág.
80)
Se, na obra de Camões são heróis aqueles que partiram
da praia lusitana a fim de passarem uma Tapobrana mítica e pessoalmente,
a obra de Saramago aponta o povo português em toda sua extensão
como este herói que resiste à descrença e parte em
busca de uma identidade própria.
Esta questão não se restringe apenas ao diálogo
com os povos europeus mas, sobretudo com a Espanha, que tem seu percurso
histórico bastante similar ao português, mas que tem no relacionamento
através dos tempos a marca da diferença:
"Mas quando todas as luzes da península se apagaram ao mesmo
tempo, apagón lhe chamaram depois em Espanha, negrum numa aldeia
portuguesa, ainda inventadora de palavras... " (pág. 35)
"Pedro Orce /.../ brigava como se esta fosse a sua terra, os outros
faziam o melhor que podiam, por pertencerem à raça pacífica"
(pág. 96)
"Portugal e Espanha terão que resolver os seus problemas
locais, menos os espanhóis do que nós, que a eles sempre
a história e o destino trataram com mais do que evidente parcialidade"
(pág. 203)
"Portugal e Espanha foram dois países de pernas para o ar.
Deixemos lá os espanhóis que sempre desdenharam das nossas
ajudas"(pág. 302)
Não obstante a diferença entre portugueses e espanhóis,
é Pedro Orce, o representante de Castela, o pai do filho que tanto
Joana Carda quanto Maria Guavira virão a ter, de modo a perpetuar
não só a espécie humana, mas assinalar a aproximação
destas duas mentalidades. A vara de negrilho, que Joana Carda leva durante
toda a viagem, torna a ficar verde e, seu possível florescimento
é a metáfora desta nova união, deste novo continente.
"A península parou o seu movimento de rotação.
Desce agora a prumo em direção ao sul, entre África
e a América Central /.../ parece gêmea dos dois continentes
que a ladeiam /.../ Desce a península, mas desce devagar. Os sábios,
ainda que com muita prudência prevêem que o movimento está
prestes a cessar /.../ Às dezessete horas, trinta e três
minutos e quarenta e nove segundos a península parou "(pág.
311)
Finalmente, a península se encontrou consigo mesma. Interrompe
sua viagem, sua peregrinação no espaço que divide
o mundo que conquistou e colonizou no passado e que, de certa forma, quer
abandonar no presente. De acordo com as idéias expressas por Saramago,
é impossível pensar a trajetória moderna de Portugal
e Espanha sem que se pense nas suas ex-colônias. A Jangada de Pedra
evoca um núcleo simbólico em que identidade, memória
e utopia dialogam com a essência do ser ibérico que, por
sua vez, está intimamente ligado ao africano e ao latino americano.
Acreditamos ser pensando nesta relação de intermediação
entre Europa, América Latina e África que Saramago resolveu
deslocar o foco histórico para o presente por duas razões
básicas: o presente é um dos elementos constituintes do
passado e deve ser levado em consideração como elemento
simbólico. A segunda razão é sua proposta de organização
de encontros, bienais, congressos que reunam os países de língua
portuguesa em sua totalidade, de modo a que todos busquem a unidade, a
globalização cultural benéfica, numa relação
de causa e efeito. Assim sendo, a história de Portugal, Brasil
e África será escrita conjunta e simultaneamente, pelas
mesmas mãos, pela mesma lavra.
Diálogo constante, intercâmbio de idéias
Ao fim da exposição, lançando nossos olhares sobre
o arcabouço teórico e, sobretudo, o texto literário,
vemos que os limites entre a ficção e a história
são tênues e criam um lugar comum entre suas áreas,
uma espécie de entreato literário.
Neste espaço estão contidas as possíveis interpretações,
por exemplo, da carta de Osberno, onde todo o conceito de história
se mantém e também se dilui quando a temos como objeto da
ficção. A veracidade histórica poderá ser
confirmada pelos estudiosos, já que o narrado aproxima-se do verossímil.
Contudo, as relações estabelecidas pelo narrador com os
elementos narrativos lhe atribui carga de ficcionalidade.
É interessante observar que a História do Cerco de Lisboa
começa a reprodução de um diálogo já
se iniciara entre o autor do livro de História e o revisor Raimundo,
onde o leitor é, por sua vez, introduzido. Não se sabe como
se iniciou o diálogo, sabe-se apenas que ele já existia
e o "deleatur", o sinal pelo qual o texto é apagado para
que outro seja composto, existe e tem sua função explícita:
cada texto pode ter várias leituras porque existem também
diferentes escrituras, dependentes de onde o foco de luz da interpretação
é jogado.
De acordo com Teresa Cristina Cerdeira da Silva13 Saramago volta seu
olhar para o passado, para a história de Portugal de modo a reviver
e recriar, baseado na multiplicidade do olhar, uma nova história,
uma nova visão. Sua narrativa incorpora elementos da historiografia
porque se apropria de matéria autorizada como factual e, na obra
em questão, parte da narrativa de Osberno. Acrescenta-se a isto
a narrativa em terceira pessoa, atitude mais própria do contar
história e porque também o novo texto é plural e
possível, já que o "Não" poderia ter sido
dito sem que os rumos da história oficial, ou seja, a tomada de
Lisboa fossem alterados. Desta última possibilidade resulta o conhecimento
de vários textos e várias ressonâncias.
Observamos que, ao abrir mão dos elementos "fantásticos",
ricamente abordados por Saramago nas visões de Blimunda, no vôo
da passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão, na separação
da península Ibérica do restante do continente europeu e
nos demais exemplos que a ficção saramaguiana nos apresenta,
o conceito de verdade, viabilidade e possibilidade se reforçam.
O próprio discurso histórico é recheado de situações
hipotéticas, de rumores, de possibilidades que o circundam e até
enriquecem mas que, por causas diversas não foram elevados, quer
por comprovação ou interesse, ao mesmo nível de história,
sem contudo deixarem de ser importantes ou existir. top...
Endnotes
1 RICOEUR, Paul. (1994) Tempo e narrativa. São Paulo: Papirus.
2 BENJAMIN, Walter.(1975). Obra completa. SP: Brasiliense.
3 LOYN, Henri (org.)(1980). Dicionário da Idade Média.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
4 BORGES, Vavy (1993). O que é História. Coleção
Primeiros Passos, vol. 17, SP: Brasiliense.
5 FOUCAULT, Michel (1987). Arqueologia do saber. RJ: Forense-Universitária..
6 Op. cit. nota anterior
7 DUBY, Georges (1976) Le Temps des cathédrales: l'art et la societé.
Paris, Gallimard.
8 SILVA, Augusto Vieira da (1936). Prefácio à Conquista
de Lisboa aos mouros (1147): narrações pelos Cruzados Osberno
e Arnufo, testemunhas presenciais do cerco. Fixação de texto
latino e tradução de José Augusto de Oliveira. Lisboa:
S. Industriais da CML.
9 cf. Castilho APUD SILVA, 1936:10
10 Op. cit. nota 2
11 LOURENÇO, Eduardo (1994). Nós e a Europa ou as duas
razões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
12 SARAMAGO, José. A Jangada de Pedra. Rio de Janeiro: Companhia
das Letras, 1997.
13 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da (1987). José Saramago entre
a História e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa:
Dom Quixote.
Bibliografia
BARTHES, Roland (1987) "A escritura do romance" in: O grau
zero da escritura. São Paulo: Cultrix.
BENJAMIN, Walter (1975). "Sobre o conceito de história",
in: Obra Completa. São Paulo: Brasiliente.
DUBY, George (1976). Le Temps des cathédrales: L'art et la societé.
Paris: Gallimard,
FOUCAULT, Michel (1987). A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense-Universitária.
LE GOFF, Jacques et alii. A Nova história. Lisboa: Edições
70.
LOURENÇO, Eduardo (1997). Nós e a Europa ou as duas razões.
Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda,
RICOEUR, Paul (1994) Tempo e Narrativa. São Paulo: Papirus,.
SARAIVA, António José et LOPES, Óscar (1992). História
da Literatura Portugesa. Porto: Porto.
SARAMAGO. José (1979). História do Cerco de Lisboa. São
Paulo: Círculo do Livro.
SILVA, Teresa Cristina Cerdeira d (1989). José Saramago entre
a história e a ficção: uma saga dePortugueses. Lisboa:
Dom Quixote.
SILVA, Augusto Vieira (1936). Conquista de Lisboa aos mouros: narrações
pelos cruzados Osberno e Arnufo. Fixação de texto latino
e tradução de José Augusto Oliveira. Lisboa: S. Industriais
da CML.
TODOROV, Tzvetan (1979). Poética da Prosa. Lisboa: Edições
70.
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