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A PERSISTÊNCIA DO ESPÍRITO BARROCO NA ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA

Almir Paredes Cunha

Museólogo e Restaurador. Dr. e Livre Docente em História da Arte pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia da permanência do barroco na arte brasileira não é um fenômeno novo1, porém, tem sido apenas sugerido sem que nenhuma tentativa de análise fosse feita.

O barroquismo da arte moderna internacional aparece como um fato posterior à Segunda Guerra Mundial, refletindo-se no movimento denominado Formalismo, que abandona a máxima funcionalista de que "a forma segue a função" e afirma que a forma é mais importante. Esta parece ser a idéia de Oscar Niemeyer, quando, respondendo aos seus críticos, diz que a forma permanece e que a função se modifica, exemplificando com os palácios, como o Louvre, que de habitações se transformaram em museus sem perder a sua beleza formal.

No entanto, para podermos ser compreendidos na afirmação sobre a persistência do espírito barroco na arquitetura moderna brasileira, é necessário estabelecer o que são, para nós, as características desse estilo.

Se estivéssemos tratando do Renascimento ou do Gótico, não seria necessária a nossa explicitação sobre as características desses estilos, pois eles não oferecem qualquer controvérsia de interpretação, o que já não acontece com o Barroco que apresenta diversas teorias sobre a sua gênese.

Não cabe aqui, entrar em considerações ou abrir polêmicas sobre as diversas teorias que cercam o estilo, nem mesmo tecer comentários sobre a validade ou correção de uma ou outra, mas definir em qual delas nos apoiamos, para basear as nossas análises comparativas, mostrando as semelhanças entre as soluções do século XVII e a arquitetura moderna brasileira.

Para nós, a teoria sobre o Barroco que melhor explica o fenômeno é a de Leo Balet2, que associa o estilo ao pensamento autoritário do século XVII, representado no campo político pelo Absolutismo e no religioso pela Contra Reforma. Essa teoria não se apóia no vazio, sobretudo em relação ao autoritarismo civil de Luis XIV, como podemos constatar em Hauser: "O rei é incapaz de pensar em arte a não ser em ligação com a sua própria pessoa. Disse uma vez, dirigindo-se aos principais membros da sua Academia [de Belas Artes]: Entrego-lhes a coisa mais preciosa deste mundo - a minha fama"3.

Considerando o Barroco como veículo de propaganda do totalitarismo, devemos estabelecer quais são os elementos necessários a esse último para conseguir os seus intentos e como aquele estilo pode ajudá-lo.

O totalitarismo, para atingir os seus fins, deve destruir o indivíduo e seu sentido de independência, ressaltando ao mesmo tempo a figura do detentor do poder, seja ele o chefe político ou o líder religioso. Para satisfazer a essas necessidades o Barroco vai ter características que esmagam o homem comum e exaltam os que detêm esse poder, sem esquecermos que, para a dominação da massa popular, algumas concessões devem ser feitas às suas necessidades emocionais.

Assim sendo, as características gerais do Barroco apelam diretamente para os sentidos, os elementos mais fáceis de serem atingidos na sensibilidade popular, e estão associadas aos seguintes aspectos: grandiosidade, luxo, teatralidade, dinamismo e exagero decorativo. A grandiosidade e o luxo servem como elemento de esmagamento do homem comum, que se sente minúsculo em relação ao espaço monumental e luxuoso, representado pelo palácio e pela igreja. A teatralidade, não somente propicia ao detentor do poder a cenografia que o destaca, mas satisfaz, ao mesmo tempo, o gosto do espetáculo dramático, indispensável ao homem comum e que foi utilizado pelos governantes desde a Antiguidade até hoje, seja ele o faraó egípcio, o imperador romano, Luis XIV ou os ditadores modernos, como Hitler ou Getúlio Vargas - o célebre "pão e circo". O dinamismo decorre do apelo sensorial da linha curva, em contraste com a intelectualidade da linha reta, mais racional. O exagero decorativo é, também, uma concessão às necessidades da massa, que materializa na ornamentação sobrecarregada o horror do vazio.

Na arquitetura, o Barroco configura-se em todos os seus elementos funcionais ou decorativos: o espaço de dimensões acima da escala humana, ilimitado, é sugerido pela integração com a pintura, a escultura e a ornamentação, através dos recursos ilusionistas das perspectivas infinitas, dos espelhos, que sugerem a inexistência de limites, e, nos jardins, pelos espelhos d'água que criam um espaço vertical virtual, infinito, pelo reflexo do palácio e da natureza que o envolve; o luxo, é conseguido pela utilização de materiais nobres no revestimento e nos elementos construtivos e decorativos; a dinâmica, corresponde aos espaços curvos de paredes sinuosas, internos e externos, e ainda ao uso de colunas de fuste helicoidal, as famosas colunas salomônicas; o sentido teatral é representado pelas pinturas cenográficas, além das escadas monumentais, utilizadas para a aparição dos personagens mais importantes do espetáculo, seja ele o rei, os membros do clero ou mesmo as imagens religiosas, no alto do "trono" situado no nicho - "camarim" - do altar e, ainda, nos efeitos dramáticos de iluminação, obtidos através de lanternas, tambores, clarabóias, janelas e vitrais estrategicamente colocados; o exagero decorativo é constituído pelo grande número de ornamentos utilizados e representados por elementos arquitetônicos - colunas, nichos, frontões, pináculos e balaustradas - ou mesmo pinturas e esculturas.

No século XVII, podemos exemplificar o Barroco, por dois monumentos magníficos: um da arquitetura civil e outro da religiosa - Versailles, na França, com seu palácio e jardim; e a Basílica de São Pedro, no Vaticano, com a igreja e a célebre colunata elíptica de Bernini

Na arquitetura contemporânea brasileira, é claro que apenas o espírito e o espaço barrocos estão presentes, pois o vocabulário formal deixa de lado os ornamentos derivados da gramática decorativa clássica que, embora bastante alterada, jaz subjacente na decoração do século XVII.

É fácil entender as ligações entre o espírito barroco e a arquitetura brasileira, quando lembramos que, essa última, tem a quase totalidade da sua produção subordinada ao poder público, através da construção dos edifícios governamentais, cujo ponto culminante é a edificação de Brasília. Também, a posição dos governantes brasileiros que, no sistema presidencialista, poderíamos chamar de "sua majestade o presidente".

Se nos abstivermos dos períodos ditatoriais, nos quais o autoritarismo é evidente, ainda assim podemos encontrar exemplos significativos da "realeza" de nossos presidentes. Dois deles são característicos dessa afirmação: Juscelino Kubitschek e Fernando Collor de Melo. Brasília, com seu planejamento monumental e seus edifícios luxuosos é obra do primeiro, com direito, inclusive, ao arquiteto e ao jardineiro do "rei", Oscar Niemeyer e Burle Marx, que materializam, no século XX, as figuras de Le Vau e Le Nôtre, respectivamente. No segundo, a centralização das atrações em sua pessoa, com atitudes de autopromoção que culminam com a "descida da rampa do Palácio do Planalto com o Presidente", espetáculo semelhante à descida da Escada dos Embaixadores por Luis XIV e sua corte, é uma prova de nossa tese do cunho monarquista do presidencialismo.

Mesmo quando, em alguns casos, os monumentos não se destinam ao governo, as obras mais significativas são encomendas de grandes empresas - o poder econômico como elemento do totalitarismo - que fazem de suas sedes a materialização de sua importância, necessitando, portanto, das mesmas características barrocas.

Poderíamos citar um grande número de obras que se enquadram nesse ponto de vista - obras públicas ou sede de organismos privados - em períodos variados da história da arquitetura contemporânea brasileira. São exemplos significativos: a sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro; o conjunto dos edifícios do Centro Administrativo da Bahia, em Salvador; o edifício da Caemi, na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro; a sede do BNDES, no Rio de Janeiro; o edifício da FIESP, em São Paulo e muitos outros.

Em virtude da vastidão do assunto, vamos nos limitar ao período relativo às décadas de 1950 e 1960, abordando algumas obras situadas em diversas cidades do país, porém, nos concentrando em monumentos de Brasília. Incluiremos na análise, além do espaço arquitetônico, alguns elementos que o complementam, quer no aspecto funcional como no decorativo - jardins, esculturas etc. Cabe lembrar, ainda, que o concreto armado possibilita audácias estruturais jamais conhecidas no século XVII.

A década de 50 corresponde, como lembramos anteriormente, ao Formalismo, o chamado barroquismo da arquitetura internacional. É o período da construção da capela de Ronchamps, de Le Corbusier; do Museu Guggenheim, de Frank Lloyd Wright, entre outros. No entanto, internacionalmente, esse barroquismo corresponde mais ao uso de formas dinâmicas e de grande plasticidade, do que a um estrito espírito barroco, o que não acontece no Brasil, em que a sensibilidade latina e uma sensualidade à flor da pele, nos impele para os estilos de grande conteúdo sensorial - os sentidos predominam sobre a racionalidade4.

As muitas obras brasileiras dessa época vão se inserir no espírito do Barroco, enquadrando-se nas características desse estilo. Sem obedecer a uma ordem cronológica de suas construções iremos tratando dos exemplos mais significativos, encerrando com uma parte dedicada exclusivamente a Brasília.

Alguns elementos isolados, aparecem antes de 1950 e podem ser considerados como antecedentes do que vai acontecer na década seguinte, prolongando-se além de 1960. As formas em tronco de pirâmide invertida ou sinuosas, usadas por Niemeyer nos anos quarenta, são exemplos desses elementos. Poderíamos denominá-los protobarrocos ou maneiristas, em virtude da sensação de instabilidade que nos transmitem.

Apresentamos a seguir uma série de exemplos isolados, localizados em cidades distintas, todos das décadas de 50 e 60, para justificar as nossas afirmações.

O Edifício Copan, obra de Oscar Niemeyer situada em São Paulo, com sua forma sinuosa, suas dimensões colossais e sua escada de incêndio, helicoidal5, que serve apenas como elemento decorativo, pois a sua funcionalidade pode ser questionada - uma pessoa fugindo de um incêndio, pela velocidade crescente de seu deslocamento, provavelmente será lançada ao espaço por sobre a ligeira grade que forma o guarda-corpo. Há algum tempo, um anúncio veiculado pela televisão brasileira mostrava a insignificância da escala humana em relação à massa desse edifício, através do recurso do zoom que começava em close no homem que fazia a limpeza da escada e terminava no espectador situado na rua. O Edifício Oscar Niemeyer, também de autoria de Niemeyer, em Belo Horizonte, apresenta um aspecto monumental e a planta amebiforme, de curvas sinuosas.

No Museu de Arte Moderna, de Afonso Reidy, no Rio de Janeiro, o edifício principal é o que melhor se enquadra no barroquismo. Não só a sua massa colossal e o aspecto dinâmico ocasionado pelos pilotis em V, mas também a sensação de esmagamento transmitida pela grande laje do teto do pavimento térreo - sem nenhum suporte intermediário - ao observador situado sob ela. O interior continua a mostrar os elementos do espírito barroco, pela a indefinição do espaço interior, limitado por paredes totalmente de vidro, que o torna infinito; um inconveniente para um local de exposições, pois coloca as obras apresentadas em luta com a belíssima paisagem exterior - deficiência compensada pelo fechamento com persianas. A escada sinuosa e solta no espaço, como se fosse uma escultura dinâmica, completa o cenário de maneira magistral. O grandioso Jardim do Aterro do Flamengo, projetado por Burle Marx, é o complemento ideal para ele e para um outro exemplo de monumentalidade barroca, apesar de suas linhas predominantemente retas - o Monumento aos Pracinhas.

Os Conjuntos Residenciais do Pedregulho e da Gávea, ambos, também de Eduardo Afonso Reidy, com suas formas sinuosas e sobre pilotis, para adaptar-se às formas curvas da encosta da montanha, são outros exemplos no Rio de Janeiro.

Na Exposição do IV Centenário de São Paulo, de Niemeyer e associados - Zenon Lotufo, Hélio Uchôa, e Eduardo Kneese de Mello - o elemento de união entre os diferentes edifícios é constituído por uma superfície irregular, formada por curvas sinuosas, a Grande Marquise. Os pavilhões de exposição constituem-se em grandes caixas de vidro, às vezes apoiadas em pilotis em V. O Palácio da Industria, atualmente ocupado pela Bienal de São Paulo, tem um espaço interior de dimensões grandiosas e a sua monumentalidade e dinamismo são acentuados pelo grande espaço vazado de forma sinuosa, entre os diferentes andares, e pela grande rampa helicoidal que faz a ligação entre os pavimentos. O Palácio das Artes é formado por uma superfície curva, semi-enterrada, com uma planta circular e com janelas também circulares, que lembram escotilhas. O próprio símbolo escultórico da Exposição, a Aspiral, é uma forma curva complexa de sentido de dinâmico ascensional.

A residência do arquiteto Oscar Niemeyer, nas Canoas, no Rio de Janeiro, de sua autoria, tem o espaço amebiforme totalmente fechado por paredes de vidro e, conseqüentemente, sem limites definidos. A casa é complementada por uma piscina, também de formas sinuosas.

Nossa análise prossegue agora, exclusivamente, com os monumentos de Brasília. O próprio Plano Piloto, de Lúcio Costa, se enquadra dentro do espírito barroco por sua solução dinâmica que lembra um avião - forma aerodinâmica intimamente ligada à idéia de movimento. Também é barroca a monumentalidade do planejamento urbano, que se evidencia na própria nomenclatura utilizada: Super Quadra e Eixo monumental.

A grande via denominada Eixo Monumental, por suas dimensões, causa uma sensação de esmagamento a quem por ela circula. Cruzá-la transversalmente se afigura uma esforço hercúleo, tal a sua largura. Ainda no Eixo Monumental, a repetição constante do mesmo tipo de edifício - os ministérios - acentua a sensação de espaço infinito. Cada um dos prédios situados em ambos os lados do Eixo e na praça em que ele termina - a Praça dos Três Poderes - representam, isoladamente, exemplos barrocos. Todos de autoria de Oscar Niemeyer.

Na Catedral, a sua planta circular está associada ao dinamismo, que é acentuado pelo sentido ascensional dos pilares que constituem a sua estrutura. O edifício é rodeado por um espelho d'água, como ocorre com o castelo de Vaux-le-Vicomte, um modelo de obra barroca do século XVII francês. No grande espaço à volta situa-se o batistério, constituído de um volume com a forma aproximada de um elipsóide de revolução, complementado por um grupo de estátuas monumentais que antecedem a entrada principal. Todo esse conjunto nos lembra a colunata criada por Bernini para a Basílica de São Pedro do Vaticano. O acesso ao espaço interno do prédio é feito através de um túnel, que estabelece um contraste violento de luz e sombra, entre a penumbra do túnel e o espaço intensamente iluminado da nave. O interior é monumental e sem limites, em virtude de suas dimensões e de ter todas as suas paredes em vidro. O aspecto ilusionista é acentuado pela presença das esculturas de Cheschiati, representando anjos de grandes dimensões e peso, que parecem flutuar no espaço pela utilização de cabos de aço para a sua sustentação. Essas esculturas nos fazem lembrar o Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, na qual um grande bloco de mármore formado pela santa e um anjo sobre uma nuvem, parece não ter peso pelo uso de suportes metálicos escondidos.

O Ministério da Justiça tem sua fachada formada por uma grande fonte de onde jorra água permanentemente. Ele nos traz à memória a importância das fontes barrocas e, sobretudo, a Fontana de Trevi, situada na fachada de um palácio romano.

O Ministério das Relações Exteriores (Palácio Itamaraty) é constituído, novamente, por uma construção situada em um espelho d'água, que prolonga o espaço no sentido vertical por uma imagem virtual representada pelo reflexo do prédio. No espelho uma escultura, o Meteoro, de Bruno Giorgi - cujo nome lembra a idéia de movimento - formado por uma série de massas derivadas da esfera, que parece flutuar sobre a superfície da água, sem peso, sendo esse efeito conseguido pela existência de um suporte que fica escondido sob a superfície da água. A estrutura do edifício é formada por uma série de arcos, independente de uma caixa de vidro que sustenta um jardim "suspenso", e todo esse conjunto nos transmite uma sensação de leveza que oculta o verdadeiro peso da realidade.

No prédio do Teatro Nacional estamos diante de uma forma menos exuberante que os demais prédios, porém, a massa grandiosa é facilmente perceptível quando observamos a pequena porta da entrada lateral e sua rampa de acesso. A forma em tronco de pirâmide tem monumentalidade, como podemos constatar nas construções egípcias, frutos de um regime autocrático. A parede inteiramente revestida por um mural escultórico, formado pela repetição quase infinita do mesmo motivo, lembra o exagero decorativo do Barroco.

No Museu da Fundação de Brasília, embora formado por massas prismáticas, a idéia de movimento fica implícita através da sugestão de instabilidade conseguida pela colocação da massa vertical, que sustenta o corpo do edifício, de sentido horizontal, fora do eixo de simetria, criando um desequilíbrio de composição. A grande escultura representando a cabeça do presidente Kubitschek é a glorificação do chefe político, colocado no centro da Praça dos Três Poderes, como a estátua do rei situava-se no centro das praças reais. A integração perfeita entre arquitetura e escultura, que aqui encontramos, é um dos aspectos fundamentais do Barroco.

Os elementos de sustentação do Palácio do Planalto são formados por superfícies curvas que se apoiam levemente sobre o terreno, sugerindo ilusionisticamente uma ausência total de peso no edifício. A rampa - verdadeira contrapartida da Escada dos Embaixadores de Versailles - e o parlatório, servem ao espetáculo cuja figura central é o Presidente da República. Esses dois elementos foram utilizados, exatamente dentro de suas funções barrocas, por Fernando Collor, como já lembramos anteriormente. Como a maior parte dos edifícios de Brasília o espaço interior é ilimitado pelo uso de paredes inteiramente de vidro.

Também no Supremo Tribunal, o edifício parece sem peso e flutuando, devido ao uso de elementos estruturais curvos e apenas apoiados no chão por pequenas superfícies. A grande caixa de vidro que se constitui no espaço interior propriamente dito, não tem limites definidos. A rampa de acesso é também um fator que contribui para o aspecto de leveza da massa da construção.

No Parlamento (Senado e Câmara dos Deputados), a massa total do prédio é formada por um prisma horizontal que se contrapõe a dois outros de sentido vertical e tem um aspecto monumental, sugerindo ainda a idéia de movimento pelo cruzamento de dois eixos de sentidos opostos. Ele fecha de maneira cenográfica o Eixo monumental. O elemento dinâmico também é conseguido pela oposição entre as superfícies curvas, colocadas em posições contrárias, que constituem os espaços dos plenários da Câmara e do Senado. Novamente, a rampa exterior de acesso é a contrapartida da grande escadaria teatral barroca.

Fora do conjunto de prédios que constituem o Eixo Monumental, um outro edifício de Brasília representa, de maneira significativa, o espírito do Barroco: o Palácio da Alvorada.

O edifício do Palácio da Alvorada é formado por uma caixa de vidro - novamente a indefinição entre espaço interior e exterior - que parece pairar acima do solo, em função dos elementos de sustentação - as famosas "colunas" em forma aproximada de losangos de lados curvos - interligados e revestidos totalmente em mármore branco. As "colunas" apoiam-se no chão por um de seus vértices fazendo desaparecer a idéia de peso. A "colunata", em virtude dos lados curvos das "colunas" forma um desenho complexo pelo entrelaçamento de curvas que nos reportam às célebres colunas salomônicas barrocas. No interior, o luxo de uma parede de azulejos dourados e o ilusionismo de uma parede de espelhos, caracterizam claramente o espírito barroco. A capela é o ponto culminante do barroquismo do conjunto, com sua massa tronco-cônica constituída por superfícies côncavas, sua planta em espiral e seu revestimento em mármore branco. O espelho d'água, que reflete a imagem do edifício, criando um espaço virtual infinito, é complementado por um grupo escultórico que parece flutuar à superfície da água, numa ausência aparente de materialidade.

Como dissemos antes, o universo de exemplos é inesgotável, porém, acreditamos que os aqui apresentados são suficientes para comprovar a nossa tese da persistência do espírito barroco na arquitetura contemporânea brasileira.

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Notas

1. CASTEDO, Leopoldo. 1980, A constante barroca na arte brasileira. Rio de Janeiro: MEC. Apenas um exercício de erudição sobre o Barroco em geral e o brasileiro em particular, apenas mostrando fotos de Brasília. DORFLES, Gillo. 1957. La nueva arquitectura brasileña y el neobarroco in La arquitectura moderna. Barcelona: Seix Barral. pp 110-114.

2. LEVY, Hannah. 1945, A propósito de três teorias do barroco in Revista do SPHAN, n. 5, Rio de Janeiro: MEC.

3. HAUSER, Arnold. 1972. História social da literatura e da arte. São Paulo: Mestre Jou, Vol. 1. p 582.

4. CASTEDO, Leopoldo op. cit. p. 21. A universalidade, uma certa intimidade com o divino, a sensualidade e a audácia - características nacionais do povo brasileiro - são igualmente traços definidores do barroco".

5. A escada e a hélice, dinâmicas, são elementos barrocos por excelência, embora já encontremos antecedentes freqüentes no Maneirismo, como, por exemplo, as escadas helicoidais de Blois e de Chambord, na França.

Referências Bibliográficas

BRUAND, Yves. 1981, Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva.

CASTEDO, Leopoldo. 1980, A constante barroca na arte brasileira. Rio de Janeiro: MEC.

DORFLES, Gillo. 1957, La nueva arquitectura brasileña y el neobarroco in La arquitectura moderna. Barcelona: Seix Barral. pp. 110-114.

HAUSER, Arnold. 1972, História social da literatura e da arte. São Paulo: Mestre Jou.

LEVY, Hannah. 1945, A propósito de três teorias sobre o barroco in Revista do SPHAN. n.5 Rio de Janeiro: MEC.

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