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INTERIORES E MOBILIÁRIO NO BRASIL IMPERIAL ANTES DO ECLETISMO

Marize Malta

Arquiteta. Especialista em História e Arquitetura no Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Mestre em História da Arte pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora de História do Mobiliário, no Curso de Design de Interiores da Escola de Belas Artes/UFRJ. Pesquisadora na área de Interiores e Mobiliário Brasileiros

O presente trabalho traça um panorama geral acerca dos interiores e mobiliário residenciais brasileiros da primeira parte do século XIX. Vários fatores o motivaram. Dificilmente encontramos bibliografia a respeito dos interiores arquitetônicos domésticos brasileiros e sua relação com a decoração e os equipamentos encontrados nos seus espaços. Além disso, o século XIX é um momento em que a casa brasileira iniciou seu processo de transformação, desvencilhando-se dos moldes coloniais, valorizou a decoração de interior, começou a preencher os espaços quase vazios e viu surgir um tipo de mobiliário bastante adequado ao clima e ao modo de vida brasileiros.

As transformações das modas e dos modos dos brasileiros

Durante três séculos de existência o Brasil manteve-se apoiado nas estruturas rurais, apesar do ciclo do ouro, no século XVIII, ter patrocinado um certo crescimento urbano, principalmente na região sudeste. Desse modo, os centros urbanos eram acanhados, possuiam infra-estrutura precária e vida pacata.

Na cidade do Rio de Janeiro, novo centro da Colônia, diversos melhoramentos iam sendo executados: construção de aquedutos, chafarizes, calçamentos, aterros etc. Mas a fisionomia da cidade permanecia atrelada a uma sucessão de portas e janelas que se escoravam umas nas outras, o que impressionara muito negativamente o Príncipe D. João e a Corte, chegados em 1808 de Portugal. As transformações que não ocorreram em trezentos anos, levariam poucas décadas para mudar a feição da cidade e os hábitos de seus moradores. Começariam a surgir os palácios urbanos e as obras de embelezamento.

A necessidade de se obter condições para o estabelecimento de uma estrutura administrativa fez com que os portos brasileiros fossem abertos às nações amigas, incluindo a Inglaterra – único contato possível com a Europa naquele momento. O mercantilismo monopolista cedia espaço ao "livre comércio", que se configurou como uma verdadeira avalanche de mercadorias a se espalharem pela cidade. Tintas, pregos, queijos e peixes salgados, chapéus, vidros e cerâmica, até caixões de defunto foram algumas das manufaturas inglesas a se imporem pelas casas comerciais, povoando a cidade e transformando os hábitos coloniais da elite. Para a população pobre tudo não passava de mero luxo, de necessidades supérfluas. Os talheres, por exemplo, eram um requinte para os grandes dias de festa; normalmente mãos e faca à cinta eram artefatos suficientes nas refeições.

Novas construções e muitas adaptações foram necessárias para se instalarem cerca de dez mil pessoas vindas com a Corte, instituições de Estado, biblioteca, fábrica de pólvora, imprensa, teatro, banco, quartel, etc. Como discorre Paulo F. Santos1, a cidade carioca foi aos poucos recebendo nova imagem: os vidros substituiam as esquadrias treliçadas2; os granitos, fartamente explorados, eram usados em calçamentos e construções; a iluminação, ainda escassa, ia bordando as ruas escuras. O Rio de Janeiro passava a assumir o status de centro de decisões e núcleo catalizador de interesses.

Com a queda de Napoleão Bonaparte (1814) e as relações reatadas entre Portugal e França, foi a vez do comércio varejista tomar corpo, em mãos de imigrantes franceses. As lojas se vestiam de vitrines e caprichos até então não explorados. Os modistas ditavam as regras da moda, assim como as livrarias iniciavam o hábito da língua francesa. A elite se mirou nos moldes europeus, principalmente através do contato com os estrangeiros aqui residentes e visitantes. O país e, especialmente, o Rio de Janeiro, adicionavam à sua miscigenação, mais outras culturas:

Dentro das cidades, fábricas fabricando o sabão, a vela, o pano que outrora se fabricava em casa, nos engenhos, vagarosa e patriarcalmente. Estrangeiros de procedências e ofícios diversos – marceneiros, cabeleireiros, modistas, fabricantes de queijo – estabelecendo-se nas cidades ou em colônias. As senhoras mais "chics" penteando-se não mais à portuguesa, ou quase à oriental, mas à francesa, vestindo-se também à francesa, indo ao teatro ouvir óperas (...). Os meninos se educando em colégios – alguns de estrangeiros – e em academias, e não apenas em casa, com o tio-padre ou o capelão.
Período de equilíbrio entre duas tendências – a coletivista e a individualista – nele se acentuaram alguns traços mais simpáticos da fisionomia moral do brasileiro. O talento político de contemporização. O jurídico, de harmonização. A capacidade de imitar o estrangeiro e de assimilar-lhe os traços de cultura mais finos, e não apenas superficiais.3

Nesse processo civilizatório era também necessário dotar os brasileiros com o gosto pelos estilos contemporâneos, muni-los com ferramentas capazes de, com as próprias mãos, construirem um nova imagem para a cidade. Era necessário aprender arte e saber executá-la, segundo normas vigentes nas Academias européias. Para isso um grupo de artistas e artífices franceses, em 1816, foi incumbido de uma missão: criar uma Academia de Belas Artes.4

A independência do país veio reforçar a necessidade de se adotar uma linguagem capaz de traduzir a nova condição de Império do Brasil, desvencilhando-o dos moldes coloniais que maculavam seu passado oprimido. A missão Artística Francesa, solicitada nos tempos de D. João VI, já havia apresentado o estilo neoclássico, que fora implantado naquela época muito timidamente.

Novas casas, novos gostos

Somente no período do Segundo Reinado, com os arquitetos formados pela Academia Imperial, é que se pôde difundir com mais eficácia o estilo neoclássico, influenciando o gosto da população, que o adotou como símbolo da independência. Casas ao rés do chão, sobrados, chácaras e fazendas foram utilizando a nova roupagem, procurando acompanhar a moda que os edifícios públicos e palácios anunciavam.5

A aparência das casas e dos moradores começou a se aprimorar. Os bailes, saraus, reuniões refletiam-se nas novas casas ampliando a área social, apesar de a disposição de receber à frente e viver atrás, ou em pavimentos distintos, permanecer tal qual o período colonial. Acolhia-se a visita em salas, saletas, salas de música, gabinetes e salas de jantar. A área íntima continuava com seus dormitórios e salas de almoço. Em meio a tanta sofisticação repentina, até os escravos foram afastados do interior das casas, que abrigava agora seviçais estrangeiros. As mulheres, aos poucos, ganhavam a liberdade de ir e vir, receber e aparecer.

Foi no século XIX que se observou a ampliação da área social das casas, principalmente no Rio de Janeiro, que sediou a Corte e aprendeu com ela, o hábito das festas e reuniões sociais. Em épocas anteriores a varanda era o espaço consagrado à sociabilidade que, com a introdução do gosto neoclássico, foi abolida. No espaço semi-aberto das varandas e alpendres não se exigia muita formalidade. Seu despojamento acolhia do padre ao caixeiro viajante, do capataz ao escravo. A rede de dormir e alguns bancos eram suficientes para receber quem lá chegasse Com o advento de novos hábitos era preciso configurá-los em ambientes próprios e munidos de imagens que o diferenciassem da informalidade de outrora.

A fachada das casas, sem as varandas, ficaram totalmente à mostra, revelando seu dotes decorativos. Sua altura, do chão, também foi modificada, criando-se o porão, às vezes habitado. O piso elevado de 1 a 2 metros evitava, nos interiores, os olhares indesejáveis dos pedestres e seus moradores podiam aproveitar a refrescante brisa e aprazível vista. Além disso, a edificação ganhava um porte mais altivo que, orgulhosa, destacava-se do paradigma colonial.

Para se alcançar o primeiro pavimento foi necessário implantar a escada que, além de seu caráter utilitário, uniu-se aos demais elementos arquitetônicos como um objeto decorativo a participar do embelezamento das casas. A escada, até então vista em palacetes e prédios públicos, contribuía para dar um caráter de nobreza ou importância às residências, até nos modelos mais simples. Saía-se do chão e, através da escada, alçava-se um pórtico ou, mesmo diretamente, a porta de entrada. Daí, ao se introduzir no interior, descobria-se o piso, não mais o chão de terra batida mas composto por tabuados de madeira. A casa brasileira buscava exibir a ascenção sócio-política dos seus moradores, auxiliada também pela sua elevação do rés do chão.

As paredes internas, ainda não muito uniformes, por serem de taipa6, revelavam-se sofisticadas e vistosas com o emprego do papel colorido e decorado. Aos poucos, os tijolos maciços e as pedras foram substituindo as antigas técnicas construtivas ou se mesclando a elas, permitindo superfícies mais uniformes. A divisão das paredes em seções horizontais tornou-se comum e regulava de duas, no mínimo. A primeira parte – o silhar – era da altura do peitoril da janela; a segunda alinhava-se em cima das portas e janelas, sendo marcada e arrematada por molduras de madeira ou mesmo delimitada por tinta à óleo, que começou a ser difundida. O silhar, mais escuro, disfarçava a sujeira do roçar dos móveis. A barra superior guardava a área nobre da parede, onde quadros, espelhos eram pendurados e pinturas em trompe l’oeil compunham os mais originais motivos, participando de um espaço cênico neoclássico.

Todos procuravam seguir as novas tendências para os interiores, à medida que a decoração crescia de importância. Em magníficos solares ou modestas casas, os móveis não bastavam, sozinhos, para embelezar um interior. Era preciso dotar as paredes de tratamentos decorativos, mesmo na casa de um humilde pintor, descrita por Teixeira e Souza, numa história passada no ano de 1827:

Entramos em uma pequena casa, cuja sala, além de não ser assoalhada, nem ladrilhada, era de telha vã; todavia o chão, que era seu pavimento, estava perfeitamente liso, e inteiramente igual. Os caibros, ripas e telhas caiados, ou pintados de branco, e as paredes tão alvas, que revelavam que esta habitação era ocupada pela pobreza e pelo asseio: uma barra, ou soco de palmo e meio, cor de café, de rente ao chão guarnecia toda a sala; e daí para cima crescia até altura de quatro palmos pouco mais ou menos, uma guarnição fingindo pedra azul-celeste e branca (...). Sobre esta bem fingida pedra estendia-se uma caprichosa barra pintada sobre a parede, que nada tinha que invejar às preciosas barras de papel, que hoje com tanto gosto e escolha guarnece nossas salas; era ela assim. Uma fita de polegada de altura de uma cor bronzeada fingia uma vasto plano em que se firmavam colunas de ordem dórica, que figuravam ser de mármore branco com veias de cor-de-rosa um tanto desbotada; sobre estas colunas assentavam-se vasos brancos, que fingiam ser de finíssima porcelana, cujas bases, orlas, da parte superior e em cada centro desses vasos havia uma pintura diversa (...). Todos estes vasos eram coroados por grandes ramalhetes de bem escolhidas flores, onde sobressaíam vistosos cravos e engraçadas rosas. Presos às asas desses vasos formando um seio, que descia quase até o plano, dependuravam-se vistosos festões de entrelaçadas flores (...).7

Enquanto no período colonial pintura significava apenas um cor única para as paredes, na maioria caiadas de branco, no período imperial os brasileiros adotaram, além do papel de parede, a pintura decorativa de diversificada policromia, mas de cores tênues e suave contraste, Estas serviam de fundo à pintura mural com cenas e paisagens, amplamente difundida. Os vãos adotaram o arco pleno nas bandeiras, enquanto as portas e janelas permaneciam retas. No teto não mais se avistava a estrutura do telhado, ela era vedada por forros em lambris de madeira pintada.

Devido a esses novos interiores de feição neoclássica, que representavam o novo status da nobreza brasileira, os móveis em estilo colonial foram desprezados aos porões ou dados a pessoas de menores posses. Ao contrário do que até então fora comum, pedia-se a compatibilização de estilo decorativo e do mobiliário, permitindo que os móveis D. Maria I continuassem a ser utilizados, em virtude de suas características neoclássicas. Contudo, sua simplicidade não fazia jus aos novos anseios. Surgia o estilo Império – Império Brasileiro – configurado, principalmente, nas fazendas no Vale do Rio Paraíba.

Com o advento do ciclo do café e de uma aristocracia emergente – os barões do café -, a antiga casa de engenho deu lugar à casa-sede8, cercada por aprazíveis jardins onde se cristalizou um modo refinado de vida no campo. As fazendas, com seu novo status, elegeram preferencialmente o estilo neoclássico como o partido desses verdadeiros palacetes rurais. Com o lucro fácil do café, as fazendas puderam patrocinar além da decoração refinada, a aquisição de todo mobiliário no novo estilo, que se espalhava pelos inúmeros salões e quartos.

Os novos móveis

O mobiliário Império Brasileiro não foi o único nem o primeiro estilo a preencher os ambientes neoclássicos. Os móveis D. Maria I, originários de fins do século XVIII, permaneceram em voga e se compatibilizaram com a linguagem clássica do novo estilo dos espaços interiores das residências brasileiras. Em virtude das importações de produtos ingleses, seus móveis também compuseram a grande variedade de mercadorias oferecidas aos brasileiros, fazendo com que estes fossem incluídos nas suas casas. A partir de uma maior quantidade de móveis autênticos ingleses, circulando no mercado interno, foi mais fácil que os marceneiros se apropriassem de detalhes, não percebidos até então, e enriquecessem os modelos D. Maria I, normalmente tão singelos.

Em relação a essas modificações, alguns autores9 abandonam a nomenclatura D. Maria I e empregam o termo estilo neoclássico – Hepplewhite, - Sheraton, - Adam ou, para certos casos, usam o termo Sheraton Brasileiro para demarcar a influência que predominou em alguns móveis neoclássicos brasileiros na primeira parte do século XIX. A esse respeito encontramos um ponto da história do mobiliário brasileiro que ainda não mereceu estudos mais aprofundados capazes de desfazer a duplicidade de nomenclatura.

Contudo, esses móveis neoclássicos possuiam feição delicada, eram quase frágeis, relacionados à feminilidade, e distantes da robustez dos estilos anteriores, além de estarem vinculados ao século XVIII, época em que a condição colonial ainda existia. Pedia-se algo mais solene, imperial, ao mesmo tempo que reportasse à nacionalidade e à modernidade. Desse modo, captou-se os estilos modernos da época, buscando caracterizá-los brasileiramente. Diretório, Império, Regência inglesa, foram as fontes da atualidade a serem interpretados para a criação de um estilo brasileiro – o Império Brasileiro.

A denominação Império, já usada na França, veio se adequar perfeitamente à situação brasileira, pois sublinha seu desejo, àquela época, de aparentar atualidade e igualdade ao paradigma europeu. O adjetivo "Brasileiro", por outro lado, registra sua territorialidade, revelando seu poder de transformação e adequação cultural, reforçando sua especificidade. Portanto, o termo que designa a nova imagem dos móveis da primeira parte do século XIX - Império Brasileiro – revela, pela primeira vez, sua condição nacional. Todos os móveis anteriores ao Império Brasileiro são denominados de estilos luso-brasileiros e utilizam a nomenclatura portuguesa, como Indo-Português, Nacional Português, Filipino, D. João V, D. José I, D. Maria I, não demarcando sua individualidade.

Dessa maneira, o Império Brasileiro foi o estilo que melhor caracterizou a nova fase da história brasileira – país independente, tropical, sob regime monárquico. Porém, em virtude da busca da modernidade, logo em seguida, acompanhando as tendências em voga na Europa, principalmente em França, outro estilo obteve simpatia dos brasileiros e passou a conviver com o Império Brasileiro – o estilo Luís Felipe. Ambos foram os estilos preferenciais a auxiliarem a construir uma imagem de sobriedade e frescor, representando o gosto europeu abrasileirado.

Diferentemente de outras áreas artísticas, o mobiliário soube aproximar os estilos estrangeiros a um gosto brasileiro, dotando-o de um caráter diferenciador dos originais e sublinhando sua maneira específica de ser. O caráter utilitário acaba por forçar uma adaptabilidade ao gosto e à necessidade local. O mobiliário então que está em contato diário com o corpo, busca na sua dimensão, no seu modo de movimentar-se e portar-se, a referência para se configurar. O modo de vida informal do brasileiro, acostumado ao balanço das redes de dormir e a móveis simples, mas sólidos e robustos, permaneceria sendo respeitado mesmo procurando um refinamento que até então não estivera acostumado.

A matéria-prima básica permaneceu a madeira, em tonalidade escura ou clara – jacarandá, vinhático, cedro, principalmente. A palhinha obteve maiores privilégios, sendo amplamente empregada nos assentos, em substituição aos estofados e couro em sola. Móveis mais requintados pertencentes à família imperial, por exemplo, adotavam, como na Europa, o mogno e, influenciados pelos franceses, as aplicações em bronze dourado, de estrelas, coroa imperial, folhas de louro, grinaldas de flores miúdas etc.

A maioria do mobiliário só fazia uso da madeira e tinha aspecto sóbrio, de linhas simples, sofisticando-se com decoração esculpida em curvas, como volutas e recortes ondulados; torneados em balaústre e estriados, entalhes com ramos de café e de fumo, golfinhos e cisnes, folhas de acanto, garras-de-leão etc. Surgiram também diferentes variedades de móveis: marquesas, cadeiras de balanço, consoles, bufês, cristaleiras etc.

Os elementos estruturais tomaram formas recortadas, como nos assentos, mais evidenciados nos canapés, muitos deles inspirados nos modelos ingleses. As formas em sabre poderiam ser adotadas nas quatro pernas ou apenas na parte posterior. Os espaldares e braços revolviam-se em curvas e contracurvas, por vezes insinuando cisnes e golfinhos. O aspecto mantinha uma aparência de frescor pela predominância da palhinha e dos vazios sobre os cheios.

As cadeiras seguiam os mesmos preceitos, mais simplificados. O espaldar era vazado com faixas horizontais recortadas e/ou torneadas, garantindo variadas composições. Geralmente a faixa superior do encosto era a mais larga dentre as demais, tinha forma levemente trapezoidal e côncava e arredondada nas quinas. Outro tipo de terminação era em torneado, com o tão empregado "rolo de fumo" ao centro, uma espécie de torneado espiral estriado. Algumas adotavam a forma em gôndola, enquanto outras remetiam-se à Trafalgar inglesa, caracterizada pela continuidade estrutural da prumada do encosto, cintura lateral e perna dianteira, marcada por curvaturas alongadas. Em praticamente todas as cadeiras não havia traves e as pernas posteriores eram em sabre, como se estivesssem libertas das travas do colonialismo.

As cadeiras seguiam os mesmos preceitos, mais simplificados. O espaldar era vazado com faixas horizontais recortadas e/ou torneadas, garantindo variadas composições. Geralmente a faixa superior do encosto era a mais larga dentre as demais, tinha forma levemente trapezoidal e côncava e arredondada nas quinas. Outro tipo de terminação era em torneado, com o tão empregado "rolo de fumo" ao centro, uma espécie de torneado espiral estriado. Algumas adotavam a forma em gôndola, enquanto outras remetiam-se à Trafalgar inglesa, caracterizada pela continuidade estrutural da prumada do encosto, cintura lateral e perna dianteira, marcada por curvaturas alongadas. Em praticamente todas as cadeiras não havia traves e as pernas posteriores eram em sabre, como se estivesssem libertas das travas do colonialismo.

Acompanhando as cadeiras, muitas vezes formando conjuntos, surgiram as mesas circulares com pés-de-galo (em número de três ou quatro) ou com base triangular assentada sobre pés esféricos, cuja perna central robusta tomava formatos de balaústres, utilizando com freqüência estrias inclinadas no bulbo principal. Algumas dessas mesas possuiam o tampo rebatível e, quando fechadas, transformavam-se em consoles. O tampo geralmente era quadrado e arredondado nas quinas.

No caso de mesas maiores, usadas para a sala de jantar, os tampos eram retangulares e sustentados por eixo central e pés-de-galo, em número de, no mínimo, dois ou recebiam pernas robustas de torneado simples. Algumas, retroagindo aos tempos coloniais, simplificavam as pernas de lira, aproximando-as a simples cavaletes. Fato comum a quase todas as mesas de jantar era a existência de gavetas sobre o tampo, uma referência às grandes mesas de cozinha ou uma necessidade para guardar um novo tipo de utensílio, até então inexistente: o faqueiro.

As cômodas e cômodas-papeleiras, menos freqüentes, foram dando lugar a armários e escrivaninhas, enquanto as mesas de encostar transformavam-se em consoles, móveis que serviam puramente a apoios de peças decorativas. O brasileiro descobria o gosto pelo supérfluo, aprendia a ter objetos meramente fruitivos. O caráter puramente funcional transformava-se, dando lugar a móveis e objetos que servissem também para o prazer dos olhos e da alma.

As redes de dormir foram sendo abolidas ou escondidas. Camas, até o momento raras, foram sendo adotadas. Até o ato de descansar desvencilhava-se da informalidade, a própria intimidade necessitava de sobriedade. Apesar dos quartos serem bem simples, em contraposição à decoração do setor social, os móveis se responsabilizavam por criar a imagem contemporânea com a presença das camas e do guarda-roupa, pelo menos. As camas mais atualizadas adotavam a forma da lit-en-bateau, em versões bem simplificadas, sendo que a maioria utilizava, na terminação das curvas das cabeceiras, o pescoço de cisne.

O estilo Império, contudo, logo sofreu influências de novas concepções estilísticas que passaram a coexistir . Em 1822 chegava ao Recife um francês, fabricante de móveis, de sobrenome Beranger. Abrindo sua oficina de móveis entalhados, utilizava a madeira local e a palhinha. A particularidade com que tratava suas criações era tal que legou a seus móveis a denominação de estilo Béranger. Ele se caracterizava por adicionar à estrutura Império exuberante entalhe com volutas e folhas de acanto inspiradas nas talhas do século XVII que, por sua vez, foram absorvendo flores e frutos regionais despejados de fartas cornucópias.

Já nos salões do Segundo Reinado, a variedade de móveis ia sendo sentida, conjuntamente a um maior número de objetos decorativos em prata, opalina, cristal, porcelana, etc. Notava-se uma preocupação com os adornos, que iam complementando a decoração, tornando os ambientes menos áridos e mais personalizados. Devido às importações e viagens ao exterior os objetos decorativos foram tomando seu lugar nos interiores.

Os estilos europeus aqui chegados abrasileiravam-se e aclimatavam-se em relação aos trópicos. Quase que paralelamente à maior difusão do estilo Império, foram surgindo adaptações do estilo francês Luís Felipe, caracterizado pela simplificação decorativa e pelo emprego da palhinha em substituição do estofamento. Havia agora mais uma opção para romper com a monotonia de um único estilo nos interiores.

O estilo Luís Felipe alcançou grande popularidade, provavelmente pela sua simplicidade adocicada com as suaves curvas do estilo rococó. Conjuntos de sala com canapé, cadeiras de braço e sem braço, acompanhados por mesa de centro e consoles foram amplamente encontrados nesse estilo. As cadeiras ditas de medalhão, com seu encosto oval, assentos trapezoidais arredondados e pernas cabriolés foram um símbolo do estilo que, pela ampla utilização da palhinha, se adaptou tão bem ao nosso clima e ao nosso gosto.

As superfícies lisas, de madeira escura, suavizavam-se com a predominância dos vazios sobre os cheios e pela adoção das suaves curvas, trazendo uma imagem ao mesmo tempo de formalidade e graciosidade, austeridade e despojamento. O brasileiro, acostumado com os móveis antigos repletos de curvas exuberantes, acolheu com prazer essa versão neo-rococó que recuperava as linhas onduladas e mantinha uma certa austeridade do estilo Império.

Apesar de uma certa diversidade de móveis e de estilos diferentes, a disposição destes nos interiores guardava certa rigidez. Salas de visita normalmente continham o conjunto de canapé, cadeiras de braço e sem braço, dispostos em "U". Nas salas de jantar, a grande mesa ocupava o centro e as cadeiras de braço dispunham-se nas cabeceiras. Ao redor desse conjunto, aparadores, cristaleiras, etagères encostavam-se às paredes. Esse exemplo de organização revela a existência de relações rígidas de poder, sublinhando uma estrutura oligárquica, como se a posição do mobiliário representasse a posição social do dono da casa em relação à sociedade e à família.

A partir do século XIX os móveis em si não bastavam como representantes simbólicos do poder. Não era suficiente possuir móveis refinados e do estilo em voga principalmente porque, agora, o mobiliário era bem mais simples do que o do século XVIII. Eles necessitavam ocupar determinado lugar e se relacionar de maneira pré-determinada com os demais móveis. Da mesma maneira, o dono desses móveis precisava se portar conforme regras, dependendo de seu título e posição na sociedade.

Muitos dos móveis estavam lá dispostos para acolher convidados. Com o hábito das reuniões sociais, diferentes das de cunho religioso freqüentes até então e dirigidas pelos rituais, permitia-se o prazer da convivência social simplesmente. Contudo, essa prática pagã deveria estar sob controle, seguir regras morais, e os móveis seriam responsáveis por fazer com que todos soubessem seu limites e seus lugares.

Seja pela decoração, pela organização ou pelos estilos Império Brasileiro e Luís Felipe, os interiores brasileiros da primeira metade século XIX souberam expor sua individualidade, adequar-se ao clima e à cultura brasileiras. Esse conjunto de fatores deixou marcas indeléveis na memória dos brasileiros e transformou-se em sinônimo de brasilidade. O estilo Império Brasileiro, por exemplo, dada sua simplicidade, elegância, leveza e frescor serviu de referência a muitos designers nas décadas de 50 e 60, quando perseguiram uma imagem moderna de caráter brasileiro.

Notas

1. Santos, P. F., 1981: p.48.

2. Treliça – tipo de veneziana, cujas ripas são cruzadas em diagonal, deixando frestas para permitir entrada de ventilação. De influência árabe.

3. Freyre, G, 1936: p.55.

4 Sobre a Missão Artística Francesa ver Rios Filho, 1942.

5 É interessante ressaltar que o estilo neoclássico adotou certa particularidade no Brasil, principalmente nos exemplares do Rio de Janeiro. O granito passou a demarcar os vãos em vez da madeira, dando certa sobriedade às construções pelo forte contraste do cinza escuro e fundo claro. O azulejo foi também bastante empregado como revestimento nas fachadas, revestindo-as totalmente ou parcilamente, trazendo um fator de informalidade e um colorido que abrandavam a rigidez da composição. Telhas de faiança azul e branca demarcavam o beiral do telhado, que muitas casas mantiveram, ou eram utilizadas em frisos que decoravam a platibanda. A esse respeito ver Valadares, 1978.

6 Taipa de mão, pau-a-pique, sopapo. Técnica construtiva, típica do período colonial, usada para confeccionar paredes, que consistia em fixar o barro em um trançado de madeiras finas, as quais eram presas a uma estrutura de pilares e vigas de madeira de lei.

7 Teixeira e Souza, 1973, p.24-25.

8 O termo casa-sede foi adotado para diferenciar a casa principal das outras residências localizadas na fazenda (casas dos filhos do dono da fazenda, dos trabalhadores etc.). A nova terminologia também reforçava a contraposição à casa-grande dos engenhos de açúcar, pois ela se diferenciava das demais não necessariamente pelo maior tamanho mas principalmente pelo seu apuro formal e decorativo.

9 A esse respeito ver Canti, T., 1988 e Museu da Casa Brasileira, 1997.

Referência Bibliográfica

Alencastro, L. F. de. [Org.], 1997. História da vida privada no Brasil – Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo, Companhia das Letras.

Freyre, Gilberto. 1986. Casa-grande e senzala. São Paulo, Círculo do Livro.

_________. 1936. Sobrados e mucambos. São Paulo, Companhia Editorial Nacional.

Maia, Tom. 1985. Velha Bahia de hoje. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura.

Museu da Casa Brasileira. 1997. O móvel da casa brasileira. São Paulo, Museu da Casa Brasileira.

Pires, Fernando T. F. 1995. Fazendas, as grandes casas rurais do Brasil. New York, Abeville Press.

Reis Filho, Nestor Goulart, 1987. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo Perspectiva.

Rios, Adolfo Morales de Los. 1942. O Ensino artístico; subsídio para a sua história. Rio de janeiro : Imprensa Nacional.

Santos, Paulo F. 1981. Quatro séculos de arquitetura. Rio de Janeiro : Instituto dos Arquitetos do Brasil.

Teixeira e Souza. 1973. As tardes de um pintor. Rio de Janeiro, Três.

Tilde, Canti. 1989. O móvel do século XIX no Brasil. Rio de Janeiro : Cândido Guinle de Paula Machado.

Valadares, Clarival do Prado. O Rio neoclássico; análise iconográfica do barroco e Neoclássico Remanescentes no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Bloch.

Viana, Hélio. 1993. Vale das Laranjeiras – Cosme Velho: um recanto da Mata Atlântica. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Patrimônio Cultural.

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