Modernidade, Identidade e a Cidade: Brasil e Brasília.
Valerie Fraser
Congresso Nacional, Brasilia
Podem as idéias de modernidade e identidade serem exploradas sem referências à cidade? Poderia realmente uma cidade existir hoje em dia sem colocar, de alguma forma, as questões de modernidade e identidade? Os três conceitos estão intrinsecamente, talvez inevitavelmente interrelacionados, no entanto de formas distintas em diferentes lugares.
No Brasil, as aspirações de modernização levaram aos processos de industrialização e urbanização; no Reino Unido a situação ocorreu de forma oposta. O sonho da cidade moderna foi realizado em Brasília e este sonho cresceu a partir das idéias de 'ordem e progresso' e de um desejo de uma nova identidade nacional.
Brasil, a moderna nação, pôde planejar sua novíssima capital no mesmo momento em que - não vamos esquecer - a extremamente suja fumaça londrina estava matando milhares de pessoas todos os invernos. Qualquer discussão sobre identidade nos convida para a óbvia questão de qual identidade, identidade de quem - e há muitas respostas para escolher: individual e coletiva; local, profissional, regional, nacional; social, étnica, cultural, política, geográfica.
Na Europa a ligação entre cívico/cidadão/cidade/civilização tem raizes profundas. Desde a antiguidade clássica a cidade tem sido teorizada como uma pré-condição necessária para uma sociedade civilizada e sempre é feita a distinção entre o ambiente físico com seus habitantes (urbs) e a mais concreta e elevada idéia de uma comunidade unificada de cidadãos (civitas). Na prática, no entanto, a civitas normalmente requer uma localização e uma urbs onde funcionar. A premissa subjacente básica é ordem: uma sociedade ordenada e um ambiente urbano ordenado são interdependentes. Estes temas clássicos foram vigorosamente revividos durante a colonização européia das Américas e os conquistadores Espanhóis eram bastante explícitos sobre suas missões civilizadoras e urbanizadoras. Como uma verdadeira sociedade civilizada, eles viram essa missão como sua responsabilidade em fundar cidades bem planejadas e que, em retorno, assegurariam o desenvolvimento de uma sociedade bem organizada. Eles colocaram teoria em prática nas milhares de vilas ordenadas e cidades quadriculadas que fundaram da Califórnia até a Argentina, locais onde o núcleo colonial original é ainda bastante visível.
Os assentamentos Portugueses na América, no entanto, foram diferentes. Inicialmente, esses assentamentos eram pouco mais do que postos de comércio e consideravelmente menos importantes que outros postos Portugueses no Oriente. Portanto, nesse caso, não havia o mesmo senso de mapear uma ordem colonial sobre a paisagem como nas cidades coloniais espanholas. Apesar disso, a idéia de relacionamento entre um organizado ambiente urbano e uma sociedade civilizada persistiu no imaginario brasileiro. Isso vem a tona de uma forma interesssante em Os Sertoes quando Euclídes da Cunha descreve Canudos como um caótico e sem-lei monstro que não era nem uma urbs e muito menos uma civitas no sentido clássico do termo, mas um lugar que era ao mesmo tempo um assentamento e uma comunidade. O medo de uma possível desorganização social e urbana rondava as teorias modernas de planejamento urbano no início do século XX na Europa, apesar de que nesse caso o medo era muito menos de possíveis rebeliões provenientes de terras remotas e muito mais da ameaça de agitação entre as classes trabalhadoras nas periferias das cidades industrializadas. Somente por meio do planejamento adequado a cidade/civilização poderia estar segura: Arquitetura ou Revolução! Como colocou Le Corbusier.
No caso do famoso planejamento urbano de Brasília feito por Lúcio Costa em 1956, vários dos fatores citados acima podem ser observados. Brasília deveria ter sido uma manifestação triunfante da 'ordem e progresso' estampada na bandeira nacional brasileira, e poderia ter servido como vanguarda de outras ordens e progressos em outros lugares do país. A linguagem e estilo de Lúcio Costa é notavelmente (e sem dúvida, deliberadamente), reminiscente da colonização espanhola do século XVI: resonâncias clássicas, um senso de missão e de um intelecto guiador, um senso de uma cidade potencial bem planejada como uma força colonizadora e civilizadora: Brasília deveria ter sido concebida não meramente... como uma urbs, mas como uma civitas... . A primeira condição deveria ter sido selecionar um urbanista imbuído de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porque desta atitude essencial fluiria a ordem, utilidade e proporção capaz de conferir um caratér monumental e desejado ao projeto. Monumental não no sentido de ostentação, porém no sentido de palpável e do que poderíamos chamar de consciente expressão do que vale a pena e é significativo. Uma cidade planejada para o trabalho eficiente e ordenado, mas ao mesmo tempo uma cidade viva e prazerosa, um fonte de orgulho e especulação intelectual; um centro governamental e administrativo mas também um dos maiores centros de brilhantismo cultural e sensibilidade do país.
Brasília exemplifica a forma na qual a simples visão unitária de civitas proveniente dos modernistas, dos conquistadores Espanhóis e dos antigos seria quase inútil como um ponto de partida de planejamento urbano, no entanto o mesmo poderia ser dito no caso de qualquer cidade fiat (cidade-decreto). A cacofonia de vozes críticas sobre Brasília está perdendo força e a acusação, frequentemente repetida, de que Brasília foi desenhada sem habitações para os seus moradores não era inteiramente justa. Costa estava desenhando uma nova capital que deveria estar à frente de um novo Brasil onde - ao contrário de qualquer outro lugar no país e das super-populosas cidades industriais na Europa e nos Estados Unidos - não deveria haver pobreza e habitação precária. Ele não poderia transformar sozinho a sociedade e eliminar as diferenças sociais e também não poderia, lógicamente, comprometer sua visão urbana fazendo transparecer explicitamente as diferenças sociais existentes em termos arquitetônicos.
Os operários da construção eram obviamente essenciais, porém eles deveriam viver em outro lugar.
O problema não é exclusivamente brasileiro: modernidade por muitas vezes teve problemas com a classe trabalhadora. Brasília teve início como um ideal, foi percebida como uma urbs - um ambiente arquitetônico planejado - e desde então tem se transformado não em uma civitas no sentido teórico, mas em um organismo vivo e contraditório, uma cidade que, como outras, tem muitas comunidades e identidades. Neste sentido, Brasília subverteu as teorias modernas nas quais seu plano foi baseado. Seu planejamento nasceu como um projeto nacionalista e modernista. Sua padronização implica uma teoria urbana modernista e inevitavelmente oposta a qualquer identidade exceto aquela que seja nacionalmente financiada; Brasília, símbolo do novo Brasil, insinuava a modernidade da nação, seu bem-estar econômico, sua estabilidade e ordem social, um novo país onde não haveria disordem e habitações precárias. Nesse nível nacional, Brasília obteve êxito e agora está completamente integrada na vida brasileira e em sua identidade nacional. A auto-identidade de Brasília é mais problemática e muito mais interessante do que sua identidade nacional. Se a idéia de identidade sugere ordem, uniformidade e controle, identidade - pelo menos a identidade de uma cidade - é geralmente caracterizada pela disordem, diversidade e diferença ou, em outras palavras, pelas pessoas. Não os cidadãos ideais e padronizados imaginados pelos teóricos do planejamento urbano, mas pessoas reais que nunca aparecem nos desenhos arquitetônicos: os muito velhos, muito jovens, deficientes, negros e pessoas cobertas por tatuagens azuis. Além disso, há os cachorros, carros adaptados, portas dianteiras, placas comerciais e grafites. A diferença e a diversidade de indivíduos que pertubam o sonho modernista de ordem.
Em Brasília, os caminhos que atravessam os extensos gramados ao longo do Eixo Monumental são testemunhas vivas da impossibilidade de prognosticar as diferentes formas como as pessoas escolhem para utilizar e se moverem ao longo da cidade. E isto é algo que dá a um lugar o seu caráter, sua identidade. Porém, não podemos exagerar sobre os princípios ordenadores de modernidade, especialmente da forma como foi entendido e interpretado na América Latina. Le Corbusier previu um mundo onde seres humanos deveriam ser removidos do trabalho estafante e pesado do processo de industrialização e onde a produção em massa deveria gerar componentes arquitetônicos padronizados com economia e precisão.
Na América Latina a teoria esteve a frente da prática industrial e os arquitetos da primeira geração modernista tiveram que adaptar seus ideais ao que estava disponível em suas mãos. Um dos exemplos mais famosos é o caso de Gregori Warchavchik quem construiu uma das primeiras casas de estilo modernista em São Paulo em 1927, apesar de que o seu design cúbico modernista internacional, aparentemente de concreto armado, é na verdade um tijolo antigo usado com cimento rebocado e utilizado como acabamento, e a fachada suspensa esconde o telhado inclinado. Em outros casos arquitetos fizeram da necessidade uma virtude e utilizaram mão-de-obra especializada para produzir construções que combinavam uma estética moderna com atributos que deram à obra um senso de identidade. Devido à ausencia de produção em massa de placas de concreto, paredes de concreto armado eram feitas manual e localmente. Concreto batido, onde a impressão da estrututura da madeira cria uma superfície com uma textura artesanal, é tecnicamente parecido com a antiga tradição de construção de taipa de pilão onde a argila é reforçada com qualquer outro material disponível - palha, galhos, pedras, pelo de cavalo - e pressionados entre as placas de madeira.
Praça dos Três Poderes
Um dos mais impressionantes - e desprezados - exemplos disso pode ser encontrado precisamente no centro de Brasília, na Praça dos Três Poderes. Estendido orgulhosamente no meio da praça e atrás do Palácio do Planalto feito com placas de mármore branco polido, está o pombal de Niemeyer feito de concreto armado. Esta estrutura, meio-caminho entre arquitetura e escultura, é rica em contradições: um design modernista simples feito de uma maneira agressivamente rústica; um lugar onde os pássaros não são um símbolo abstrato da paz e da pureza, mas um lugar onde eles se aninham e empoleiram diariamente e introduzem barulho e desorganização no coração da cidade ideal (visto a recente proibição de alimentar pombos na Trafalgar Square em Londres). Sob o pombal o chão não é feito de mármore ou lajes de concreto, mas de pequenos quadrados feitos de pedras marrom-claro, meticulosamente cortadas e colocadas manualmente por meio da tradicional técnica conhecida como mosaico Português. O chão e o pombal suportam as marcas de sua manufatura: as mãos que fazem o chão pertencer as pessoas que construíram a cidade e que, apesar de eles não terem permissão de se estabelecerem no local, na realidade eles constituem os primeiros cidadãos da nova civitas de Brasília: a identidade humana no bastião da modernidade.
Portuguese version translated by Cristiana Bertazoni Martins.
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