|
|
|||||||
|
|
||||||
Flávio de Carvalho, artista plástico e animador culturalRui Moreira LeiteFlávio de Carvalho (1899-1973) é o artista brasileiro que personifica o ideal das vanguardas artísticas do século XX, o artista total – a um só tempo artista plástico, arquiteto, encenador teatral e cenógrafo, escritor e animador cultural. Sua ação foi sempre controversa. Era um artista de vanguarda de formação tradicional (1). Era um expressionista divulgando surrealistas e abstracionistas. Era um arquiteto lançando projetos como manifestos em concursos públicos (Figura 1), mas cujas únicas obras construídas o foram por sua própria iniciativa. Era um animador cultural ligado tanto à criação quanto à destruição das associações às quais se vinculou. Seu primeiro trabalho publicado é um comentário ilustrado a um espetáculo de bailado em 1926. Mas sua aproximação aos escritores e artistas modernos de São Paulo só pode ser identificada ao fim dos anos vinte, quando já se lançara como arquiteto de vanguarda apresentando projetos em sucessivos concursos públicos (2). E, na qualidade de adepto da Antropofagia, corrente modernista liderada por Oswald de Andrade e Raul Bopp, faria conferências no IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos que se reuniria no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte em 1930. A Antropofagia se dissolveria, assim como muitos dos futuros agrupamentos artísticos de São Paulo. E Flávio, que se empenharia na criação de várias destas associações, nunca deixaria de ser visto como responsável por sua dissolução. Assim, no Clube dos Artistas Modernos, que animou durante o ano de 1933 - e que encerrou suas atividades a partir do fechamento do Teatro da Experiência pela Delegacia de Costumes quando da montagem de seu Bailado do Deus Morto, em dezembro daquele ano. Assim, no Salão de Maio, para o qual traria a melhor das contribuições, conseguindo a participação dos surrealistas ingleses e de Ben Nicholson na segunda edição em 1938 – mas cuja comissão organizadora dissolveria registrando a mostra em seu nome no ano seguinte. Sua curiosidade pela psicanálise e etnografia teria resultados tão diversos quanto sua Experiência no. 2 - na qual narra a tentativa de linchamento de que foi vítima ao desafiar uma procissão de Corpus Christi no centro de São Paulo em 1931 - ou sua integração a uma expedição de primeiro contato com tribos indígenas no desenvolvimento de um projeto cinematográfico em 1958. Ao apresentar seu trabalho como artista plástico cabe apontar a relação com o conjunto de sua obra, sugerindo em que medida corresponde à figura do artista total (3). Podemos começar descrevendo os trabalhos. A obra do artista plástico não é grande: cerca de cem óleos (Figura 2) e mil desenhos. O conjunto tem também uma unidade estilística e de gênero - Flávio de Carvalho foi um pintor e desenhista de retratos e nus expressionistas. Excetuadas algumas composições surrealizantes do início dos anos trinta e duas composições abstratas dos anos cinqüenta, apenas dois óleos não se encaixam na descrição acima: uma paisagem urbana dos anos trinta e uma natureza-morta dos anos quarenta. Os primeiros trabalhos conhecidos, ilustrações e caricaturas, marcam o desenho da primeira fase de sua obra, que se encerra com sua primeira exposição individual em 1934. Os nus a caneta tendem a captar e sugerir movimento dos corpos mesmo em poses estáticas, traindo o ilustrador no registro dos espetáculos de dança. Da mesma forma, a acentuação de pormenores expressivos, característica da caricatura, é nota marcante nos retratos. A obra gráfica invadirá os murais do primeiro projeto para o Palácio do Governo de São Paulo (Figura 3) num grupo de bailarinas em movimentos sincronizados. Inversamente, figuras de monumentos e conjuntos escultóricos integrados a esta primeira série de projetos arquitetônicos fazem sua incursão na obra gráfica do artista, como é o caso da capa do livro de Osório César Que é o Estado Proletário? Nesta primeira série de trabalhos destacam-se entre os desenhos as ilustrações para o livro Experiência no.2, nas quais Flávio oscila do registro expressionista - acentuando o negro e o sombreado - e o surrealizante, propondo associações inesperadas, que reaparecem nos óleos A Inferioridade de Deus (1931, col. Gilberto Chateaubriand) e Ascensão Definitiva de Cristo (1932, col. Pinacoteca do Estado) igualmente sugeridos pelo estudo de psicologia das multidões. A única paisagem urbana é uma vista noturna do Viaduto Santa Efigênia, pintada do ateliê do artista situado no prédio onde funcionava o Clube dos Artistas Modernos. Os retratos a óleo do primeiro período são caracterizados por um colorido contido e o princípio da investigação psicológica. No Retrato de Vera Vicente Azevedo (1934, col. particular) é possível observar como o artista recorre ao desenho ao fixar os olhos da retratada a lápis sobre a tela. Nos nus femininos as figuras representadas em estilizações alongadas destacam-se ou dissolvem-se no fundo da composição em função das formas e cores. A exposição de 1934 foi fechada pela polícia e teve cinco quadros apreendidos. Flávio de Carvalho recorreu, obtendo a devolução das obras e a reabertura da mostra. Segundo revelou mais tarde, católicos tradicionalistas teriam sido os responsáveis pela intervenção da Delegacia de Costumes, tanto no Teatro da Experiência, quanto na exposição realizada à rua Barão de Itapetininga. Na verdade, o Clube dos Artistas Modernos havia congregado militantes anarquistas e comunistas em suas reuniões e debates, o que igualmente deve ter atraído a atenção policial. Entre apresentações musicais e palestras o destaque ficaria para a mostra de gravuras da artista alemã Käthe Kollwitz e a palestra do muralista mexicano David Alfaro Siqueiros. Por iniciativa de Flávio de Carvalho, e contando com a colaboração de Osório César, aconteceu também a mostra de trabalhos de alienados e crianças com programação especial de palestras. Quando Flávio de Carvalho cria o Teatro da Experiência, as tensões no grupo de participantes do Clube já sugeriam seu fim próximo. A peça de Flávio O Bailado do Deus Morto combinava dança, canto e efeitos de iluminação sobre figurinos brancos e máscaras de alumínio. A exposição de 1934 é seguida por sua viagem à Europa. Seu regresso no ano seguinte marca o novo momento do animador cultural capaz agora de promover a aproximação com artistas e obras do exterior. Como primeira parte deste programa dá início à publicação de uma série de entrevistas realizadas com Herbert Read, Man Ray, Tristan Tzara e André Breton, entre outros. Em 1938 obtém a participação dos surrealistas ingleses (4) - então liderados por Roland Penrose e E.L.T Mesens - no 2o. Salão de Maio, para o qual consegue ainda a contribuição do artista inglês Ben Nicholson. No ano seguinte a mostra concede relevo ao abstracionismo apresentando obras de Calder, Magnelli, Albers, Hélion e dos artistas abstratos americanos Carl Holty, John Xcéron e Werner Drewes. Este contraponto entre surrealismo e abstracionismo era um dos itens do programa que Flávio de Carvalho pretendia realizar através das exposições. Outro era registrar as realizações dos artistas modernos brasileiros, o que em parte também conseguiu, com a publicação da Revista Anual do Salão de Maio (RASM) para a qual vários artistas e escritores deram seus depoimentos e na qual ele próprio depôs acerca do Clube dos Artistas Modernos e do Teatro da Experiência. Nesta segunda metade dos anos trinta consegue edificar um conjunto de dezessete casas situado no cruzamento das Alamedas Lorena e Ministro Rocha Azevedo em São Paulo e a casa da Fazenda Capuava (Figura 4) , nesta propriedade da família, em Valinhos. Tanto no conjunto de residências quanto na sede da fazenda combina soluções modernas de interpenetração dos volumes no interior das edificações com sua versão pessoal do expressionismo – sugerindo rostos em duas das fachadas de casas do conjunto e evocando a monumentalidade dos primeiros projetos dos anos vinte com um salão de oito metros de altura na casa da fazenda. Além de anunciar as casas como quentes no inverno e frias no verão, introduz uma série de inovações e apresenta sugestões aos moradores através de um folheto impresso. Na casa da fazenda, que definiu como “um produto puro da imaginação, em busca de uma maneira ideal de viver”, além do pé direito duplo do salão e novos materiais de acabamento (também presentes no conjunto de residências) a decoração era essencial para a criação do ambiente inusitado da moradia. As construções - do conjunto e da casa da fazenda – são concluídas em 1938 e a partir de então, pelos trinta anos seguintes, Flávio retomaria a participação em concursos públicos no Brasil e no exterior. Os desenhos do período maduro começam por ganhar definição a partir de linhas de força e, num segundo momento, o artista explora a sugestão de efeitos de cor – procurando, como afirmou, criar a impressão de que as tonalidades do traço representam cores, especialmente naqueles trabalhos realizados a partir da segunda metade dos anos quarenta. Entre estes, os nove desenhos a carvão que compõem a Série Trágica (1947, col. Museu de Arte Contemporânea, USP) (Figura 5) na qual o artista registra os momentos finais da agonia de sua mãe - Ophélia Crissiúma de Carvalho - e que seriam exibidos em sua segunda exposição individual, realizada no Museu de Arte de São Paulo em 1948. O artista privilegiaria em meados da década de trinta o desenho a caneta, que praticamente abandona pelo lápis conté e pelo carvão ao longo dos anos quarenta para, em seu último grande momento no desenho, na década seguinte, trabalhar quase que exclusivamente com o nanquim a pincel. O óleo conhece uma extensa galeria de retratos que perseguem a captação psicológica através de cor e formas livremente trabalhadas. Segundo Flávio de Carvalho, o resultado é a compreensão da personalidade do retratado colocando em evidência suas possibilidades dramáticas e líricas. Mário de Andrade (Figura 6) testemunhou a agudeza da penetração psicológica comentando sobre seu retrato: “vejo nele o lado tenebroso de minha pessoa, o lado que eu escondo dos outros”. Nos anos cinqüenta passa a adotar a geometrização dos fundos das composições, tanto nos retratos quanto nos nus - até chegar à realização de composições abstratas. De forma curiosa, estas parecem estar relacionadas com seus projetos de cenografia para espetáculos de bailado na definição de planos coloridos e não corresponder aos contatos anteriores do artista com o abstracionismo ou ao momento ascendente do abstracionismo geométrico no Brasil. A partir de meados dos anos cinqüenta o artista publicaria suas séries mais longas de artigos em jornal, antecedidas por aquelas nas quais, durante os anos quarenta, registrara suas viagens pelo Paraguai e Peru. Mas desta vez suas séries - dedicadas à moda (1956) e à evolução humana e social (1957-58) - prenunciam o lançamento de seu traje de verão masculino pelas ruas do centro de São Paulo e sua participação numa expedição de primeiro contato com tribos indígenas, organizada pelo Serviço de Proteção aos Índios. O período final de Flávio de Carvalho revela um artista dividido entre as solicitações sempre maiores - seguidas exposições, premiações, encomendas de retratos – e sucessivos episódios nos quais marcaria sua posição de contestação. Assim, é lançado candidato a presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil seção São Paulo por uma chapa de oposição em 1967. Projeta e executa o Monumento a Garcia Lorca (1968) por encomenda de exilados espanhóis e uma comissão brasileira de homenagem que reúne nomes expressivos da Universidade de São Paulo, da música popular e do teatro. É lançado candidato à Academia Paulista de Letras em oposição à candidatura de Alfredo Buzaid, ministro da Justiça, em 1972. E obtém o reconhecimento da nova geração de artistas sendo sucessivamente acolhido pelo Grupo Rex, que o convida a apresentar suas investigações sobre a evolução do vestuário em 1966; pelos surrealistas de São Paulo, que se interessam, em 1967, pelo seu contato com Breton e Benjamin Péret; e pelos tropicalistas - que o incluíram num roteiro de autoria de José Carlos Capinam e Torquato Neto escrito para TV em 1968. O papel do artista como animador cultural ou sua série de intervenções públicas chegaram a eclipsar o artista plástico e vem recebendo desde a década de sessenta uma atenção cada vez maior. Na verdade, a pintura e o desenho realizados em suportes tradicionais tem de ser compreendidos em relação ao conjunto de seus trabalhos e de sua atuação, que fizeram de Flávio de Carvalho uma das figuras centrais do cenário artístico de São Paulo. NOTAS(1) Flávio de Carvalho formou-se engenheiro civil em 1922, pelo Armstrong College da Universidade de Durham em Newcastle Upon Tyne, onde cursou paralelamente a King Edward VII School of Art, denominação formal do departamento de Belas Artes da mesma universidade. (2) Para uma apresentação dos quatro pioneiros da arquitetura paulista (além de Flávio de Carvalho - Gregori Warchavchik, Rino Levi e Jayme da Silva Telles) ver Ricardo Forjaz Christiano de Souza Trajetórias da Arquitetura Modernista (São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura / Informação de Documentação Artísticas, 1982). (3) Sobre o artista e sua obra ver meu artigo “Flávio de Carvalho: Modernism and the Avant-Garde in São Paulo, 1927-1939” Journal of Decorative and Propaganda Arts (1995): 196-217. (4) O envio das obras ao Brasil ganha registro na publicação do grupo ver “Notes” London Bulletin (London, maio 1938) p.22. Para um quadro amplo dos contatos internacionais do grupo ver de Michel Rémy Surrealism in Britain (Aldershot: Ashgate, 1999). |
|
||||||
|
|||||||